11 de jan. de 2026

POEMAS (QUASE HAIKAIS) – A RÃ

 




1.

Sussurra o vento: psiu!

sem bulha! Na tarde – um Ploc!

– Mergulha a rã



2.

No velho lago, pula

a rã: dia aziago,

sem amanhã.



3.

Não se ouve à tarde o

baque no velho tanque

do pulo da rã.



4.

Que se destranque

na tarde o pulo da rã

no velho tanque.



5.

Chap, chap, chap! Que

foi isso no meio da tarde?

A rã – no tanque.





3.11.2019 / 29.10.2025

(Ilustração: Auguste Renoir - La Grenouillère (o lago dos sapos) - 1869)











8 de jan. de 2026

tudo é relativo (talvez uma visão ingênua)

 



com uma faca descasca-se a fruta

com a mesma faca mata-se uma pessoa

a tecnologia – e a faca é um objeto tecnológico –

não é má nem é boa

só depende de que não caia na mão de um filho da puta

e isso é bastante lógico



tudo na vida é relativo

um truísmo do velho cientista

porque tudo depende do ponto de vista

e não do que está escrito em qualquer livro

seja ele profano ou sagrado – mas principalmente sagrado

pois no sagrado se escrevem mentiras eternas

enquanto no profano há verdades que mudam de lado

sejam elas antigas ou modernas



agora muitos temem a tal inteligência artificial

talvez ignorando que ela é apenas uma tecnologia

se cair nas mãos de alguém do mal

entramos todos numa fria

mas se bem usada para o progresso da humanidade

pode ser a ferramenta que nos ajude

a dar ao ser humano a plenitude

para sair da barbárie antes que o mundo ainda mais se degrade





16.12.2024

(Ilustração: robô, gerado por IA)









5 de jan. de 2026

Para Clara Nunes

 





Não sei se é verdade ou conto de areia

A voz clara e potente

Que cantava o canto dos orixás

Não sei de quantos adeuses

Se faz a saudade do seu canto

Quem chamou para o infinito

A maré cheia desse canto

Quem chamou

Quem chamou não lembrou

Que maré que vai nunca volta

Deixa na areia o passo vago

Mas a voz que me desperta

Desperta no sangue do povo

O poder de cantar e cantar de novo

Um poder que nada para

A saudade sem fim dessa mulher

A voz potente – a voz de Clara




17.4.2025

(Ilustração: Clara Nunes - foto de Wilton Montenegro)


2 de jan. de 2026

o viajante

 




vaguei um dia pelas estrelas da ursa

quando estive cavalgando

pelas planuras da europa

o corpo gelado nas alturas alpinas

os pés fincados

na floresta amazônica



navegador do cosmo

pelos mares ocultos

dos deuses de um olimpo decadente

sou fernão de magalhães

a dobrar todos os cabos

que vestem fardas verdes

desnutridas de esperança



descobridor das estradas dos mares

sou colombo a sobrenadar

com as galeras santa maria

e mais a pinta e mais a niña

sobre os cascalhos dos quartéis

para molhar no vinho

que virou vinagre

as insígnias dos generais



pedro dos álvares sou cabra cabral

para fincar no peito de cada negrinha

como marco da corte portuguesa



o desejo de decepar bem decepado

a mão suja que o rei dom joão

ousou limpar em cada carapinha



mulato ou negro retinto

nasci na noite do cruzeiro

como descendente direto

daquele capitão do mato

que riu da febre que matou

o bandeirante genocida

enganado pelas pedras verdes



roto e faminto me empreguei

nas fazendas dos paulistas

colhi mais miséria que café

e deixei em cada eira

uma lasca de minha pele



segui minha jornada sem rumo

na coluna de outro capitão

que no mato plantou revolução

semente que não medrou

semente que só ficou

como ex-futuro baobá

dentro de cada peito

de preto pobre e favelado

que ainda arde de febre e dor

por um tempo sem desigualdade



viajo por todas as matas

o corpo de onça pintado

com as cores do urucum

como negro ou tupi ou tapuia

prego no peito do genocida

o prego que roubei da cruz



cruzo mares desde europa

até a foz do amazonas

e depois me espalho por aí

do oiapoque até o chuí

a plantar minhas estrelas

e a colher muitas florestas



bebo os rios de águas limpas

que os malditos empestearam

e os vomito sobre a cidade eterna

com todo o mercúrio e todo ouro

que enfeitaram suas bocas podres

enterro nas grotas das montanhas

a língua de fogo das fornalhas

que derrete o ferro das gerais

chuto a bunda dos financistas

que atiçam a sanha dos racistas

e grito contra gente que não presta

falso patriota que me detesta



sou sim o viajante vigilante

que não nega cada delito

registrado nos gritos do bem-te-vi

e é assim que assumo

meu próprio grito que ecoa

até pelas estrelas da ursa

quando planto meus pés feridos

nos píncaros alpinos podres

de uma europa que não há

e deito as penas do meu cocar

no leito agônico dos rios mares

e vestido com o manto tupinambá

planto a sonhada pátria que um dia virá





25.9.2025

(Ilustração: Manto Tupinambá na Biblioteca do Museu Nacional no Rio de Janeiro).

30 de dez. de 2025

Quem é Luana?





quando a lua enluara um luar

no leito de Luana

ela levita leve e leitosa à luz do neon



são noites de pluma e brisa

e a pluma conduz Luana para o nirvana

e a brisa conduz Luana para a luz do neon



ela aspira em si mesma os respiros do rio

e o rio lento e deleitoso corre por suas veias

e o rio lento e deleitoso abre as portas

para estranhos desejos e apelos



ardem os seus pelos

enrola rolos de areia sua língua trêfega

em mares de algas e sal mergulham seus olhos

estrugem onças dentro de seu cérebro



do nirvana à dor suprema o salto mortal

à luz da lua de neon

espelha os caminhos que se abrem à frente



têm carpetes de veludo esses caminhos

que levam Luana para os confins das estrelas

que levam Luana para os confins do universo




5.10.2025

(Ilustração: Andre Favory - una mujer dormida junto a la ventana)

26 de dez. de 2025

dezembrismo





quisera ser um gato para enrodilhar-me

num canto qualquer da minha casa

e dormir dezoito horas por dia

para livrar-me desse dezembrismo

que me açula em tempos de luzes

essas luzes que obnubilam meus olhos

e me dão vontade de dormir como um gato



felino e felinianamente dormir e esquecer

esquecer essa porra toda - o vermelho

desse ridículo gordo papai-noel-santa-claus

ou que nome dão a esse velhinho idiota



bloquear os pedidos de boas-festas

tão falsos quanto são falsos todos os presépios

a comemorar um nascimento que não houve

numa falsa manjedoura e uma estrela falsa

três reis ridículos – de onde? – a cortejar

um menino que devia ser pobre

que devia trazer a palavra da revolução

e essa palavra se perdeu pelos caminhos

da estupidez de religiões de gelo e gado



esse menino - não representa mais as crianças

que as guerras matam hoje mundo afora



quisera tanto dormir e ronronar como um gato

para não olhar com meu parco olhar felino

as caras burguesas de falsa felicidade

que duram o espoucar dos fogos de artifício



ah como eu gostaria de me enroscar

em mim mesmo e desenrolar em sonhos

meu dezembrismo em tapetes de fogo

que queimassem a estupidez humana

nesses tempos de falsas festas e falsas luzes

quando a humanidade está mergulhada

nas trevas da estupidez e das guerras inúteis

com é inútil também [e como eu o sei]

o meu protesto neste mais que inútil poema



15.12.2025

(Agnolo Bronzino - Sacra famiglia Panciatichi or Madonna Panciatichi)

23 de dez. de 2025

os pitagóricos

 




os pitagóricos demandam ciência

para voar sem asas

sobre as hipotenusas

pedindo aos pássaros paciência

para não pisar nas brasas

que avivam nas palavras sujas

os provérbios sem sentido

agregados ao pedido

para que respeitem o teorema



já que perpassam pelos cérebros inúteis

na busca insana de resolver o problema

que envolve a tristeza das vidas fúteis



15.12.2025

(Ilustração: Gustave Courbet - Charles-Baudelaire, ca. 1848)

20 de dez. de 2025

UMA ESCRITORA COM NOME DE GATO E UM POEMA

 



Os gateiros temos a mania de nos procurar nas redes sociais, de colecionar nomes de famosos que também são gateiros, de estar sempre atentos a qualquer texto, poema, livro etc. que se refira a gatos. Tenho, inclusive, num dos meus blogs (o “trapiche de bagatelas”), um item dedicado aos gatos que, de forma, vamos dizer, um tanto pernóstica, denomino de “ailurofilia” (amor por gatos). Acima dessa mania de gatos, no entanto, está meu amor pela poesia, pela literatura, pelos livros.

Sim, leio muito. Autores do mundo inteiro. Já li livros traduzidos por ela, que é o motivo desta minha crônica: Margarida Vale de Gato, escritora, poeta e tradutora portuguesa.

Imaginei: alguém com esse nome deve ser gateira.

Busquei em suas biografias, disponíveis na internet, alguma referência a gatos. Nada. Pedi ao chat GPT uma pesquisa, usando como justificativa um poema em que ela faz referência explícita a gatos, chamado “Cat people”. Nada. E ainda levei “bronca” do chat GPT, ao me lembrar que ao escrever um poema que fala de gatos não quer dizer que a autora seja gateira (ou ailurófila)!

No entanto, nada me tira da cabeça que, com esse nome, Margarida Vale de Gato não seja uma gateira. A bronca do chat GPT me levou a analisar com ainda mais detalhes o tal poema, “Cat people”, que transcrevo a seguir:


Curiosa a tribo que formamos, sós

que somos sempre e à noite pardos,

fuzis os olhos, garras como dardos,

mostrando o nosso assanho mais feroz:



quando me ataca o cio eu toda ardo,

e pelos becos faço eco, a voz

esforço, estico e, como outras de nós,

de susto dobro e fico um leopardo



ou ando nas piscinas a rondar –

e perco o pé com ganas sufocantes

de regressar ao sítio que deixei



julgando ser mais fundo do que antes.

A isto assiste a morte, sem contar

as vidas que levei ou já gastei.


Não vou falar sobre a exímia arte poética da autora, o que é evidente a qualquer leitor de capacidade mais aguçada para a poesia. Também não vou comentar o erotismo elegante que perpassa principalmente os dois quartetos, ressaltado por palavras cuidadosamente escolhidas, como “assanho”, “cio” que, associadas ao mundo felino das gatas, reforçado por “a voz esforço, estico”... “como um leopardo”, me provocou arrepios pelvianos. E sou obrigado a concordar com o chat GPT: quando lhe lembrei que há uma animalidade felina no soneto, ele me esclareceu, de forma que fiquei até pensando, de um modo meio absurdo e assustador, que uma inteligência artificial pode ter sensibilidade poética, que, sim, há três elementos no poema que costumam aparecer em textos de escritores que convivem com gatos (e misturo abaixo as observações da IA com as minhas), como as seguintes expressões:

1. “fuzis os olhos”, ou seja, o brilho noturno do olhar felino, a súbita verticalização das pupilas que dá ao predador a capacidade de distinguir seu objeto de caça;

2. “de susto dobro”, típico da gata, que é dos felinos, melhor caçadora que o macho, com o arcar do corpo de forma instintiva, para aumentar seu volume e, com isso, intimidar qualquer possível predador;

3. “as vidas que levei ou já gastei”, um traço que tradicionalmente se atribui aos gatos, de sobrevivência a várias vidas, ou a várias vicissitudes da vida.

A aguda observância da vida dos gatos, ou mais precisamente, das gatas, num poema de extrema beleza e de sutilezas felinas, não faz, é claro, de Margarida Vale de Gato uma gateira, mesmo com esse lindo sobrenome (ou apelido, como dizem os portugueses). Mas faz de mim, seu leitor, não só desse poema, mas de muitos outros, um seu fã ainda mais ardoroso, porque posso sonhar e imaginar que, por trás da grande escritora e tradutora, esconde-se também uma gateira como eu e muitos outros escritores e artistas que já se deixaram retratar em companhia de seus gatos, ou já se declararam explicitamente gateiros. E eu me lembro, especialmente, como exemplo, de Balthasar Klossowski, conhecido como Balthus, o rei dos gatos. Se não encontrei nenhuma foto dela com seu gato ou gata de estimação, não deixarei de esperar que um dia isso ainda aconteça.

Afinal, os gateiros temos assim uma espécie de sete vidas de esperança de sempre encontrar outros admiradores ou apaixonados por gatos, nas mais sutis indicações, nem que seja apenas no sobrenome ou apelido de uma grande poeta.




2.12.2025

(Ilustração: Geza Faragy - slim woman with a cat)

17 de dez. de 2025

noites de outrora





trago das noites de outrora

o cheiro das lobas

impregnado na memória

do meu olfato agonizante



não há nesse cheiro qualquer mistério

que não seja o próprio mistério

de um tempo de espessas magias

de um tempo que – sei agora –

era apenas de desencantos

por beijos jogados no abismo

por promessas perdidas no ostracismo

onde medraram entre pedregulhos

de sentimentos improváveis

semeados por mãos insensíveis

na busca de carícias inúteis





26.9.2025

(Ilustração: Edvard Munch - noite na rua Karl Johan; 1892)

14 de dez. de 2025

lua na janela

 





a lua espiou pela janela

e escondeu-se entre nuvens

de vergonha a palpitar

quando te viu nua e mais bela

que todo o seu esplendor lunar



deixou cair no entanto um breve raio

para atiçar-me tanto amor

que nos jogos de sombra e luz

entre a nudez envergonhada da lua

que tenta concorrer com a tua

escolho o laço de teus braços em cruz



eu – um novo deus crucificado

voo do céu ao inferno em cada espasmo

e nos prazeres mais ateus

morro e ressuscito em cada orgasmo

nas asas de luz dos arroubos teus



pela janela a cada noite que a lua passeia

traz sempre diferente o seu semblante

e ao ver que a cada noite nosso amor se renova

de enciumada e ressentida lua cheia

muda de repente para minguante

e depois para a triste e solitária lua nova



24.4.2025

(Ilustração: Chantron Alexander - Danae)





11 de dez. de 2025

lua morta

 




quando os

lábios que

beijavam

outros lábios

beijam agora

o vento

e fecham-se ao

silêncio de

uma noite sem luar

bate no peito um

frêmito

de passos ocos

de fantasmas que

caminham por

estradas de

pedras toscas

sem olhar

para trás

[proibido o retorno]


só o abismo e a solidão do abismo

e então

onde

tudo que era

cor e luz

para os

beijos

de lábios rubros

vira o beco onde

se agrupam mais

e mais

os fantasmas

- abantesmas tresloucados

a rugir à lua

a quebrar o

ruído dos

passos ocos


nos dentes

de fera

o desejo morto

insepulto

que

não

devia

nunca

ter

ressurgido

ao grunhido

do vento

à luz

da lua

para sempre


morta morta morta



28.11.2025

(Ilustração: Odile de Schwilgué: lune et mars)



8 de dez. de 2025

inúteis poemas

 




às vezes penso

quão inúteis os meus poemas

versos e mais versos que não aliviam

as minhas desesperanças

nem abalam corações e mentes

penduricalhos – apenas penduricalhos

de uma vida – margem de rios

em pororoca – que se esboroa



tento reconstruir com meus poemas

as pontes naufragadas

nos rios de minhas lágrimas

e os traços tortos desses esboços

servem somente aos meus sonhos

como raios tênues de esperanças mortas



muitas vezes penso

quão vazios os meus poemas

– inúteis como a própria vida

que carrego – casco endurecido

de um jabuti sem rumo –

per una selva oscura



tantas vezes penso e repenso

quão toscos os meus poemas

– calhaus que as águas levam

para os poços profundos

das cachoeiras

de minhas frustrações



então a certeza

– se a vida me empobreceu

também meus versos

ficaram mais pobres

[não que fossem nobres]

reflexo do que tenho vivido

consequência inevitável

– o que é mais provável –

de tudo que tenho sofrido



8.8.2025

(Ilustração: escultura de Bruno Catalano - Les Voyageurs; 

Marselha, França)