1 de fev. de 2026

sete pecados: gula






esgotam-se pouco a pouco

o sangue dos povos

não se esgota a gula

dos que dominam

os bytes e bites

que tudo controlam



não se esgota a fome

dos que sugam

gota a gota

o sangue dos povos



vampiros eletrônicos

máquinas de moer ossos

salvam-se por detrás

dos canalhas que se sentam

nos tronos do poder



engordam suas contas

nos paraísos fiscais

enchem de petróleo

seus navios piratas



a monumental bocarra

tem dentes de ouro

e caninos de titânio



cada rio que morre

cada floresta que queima

cada peste que grassa

cada grão de minério

arrancado com veneno

tudo enfim que brilha

sobre a terra

tudo enfim que conta

alimenta a gula

dos poderosos da terra

e mata mais um pouco

cada braço que se cansa

e pouco ganha de seu esforço



só o que se pode dizer

é que o mundo está

cada vez menor

cada vez mais pobre

para tanta fome

para tanta gula



22.1.2025

(Ilustração: Jacques Callot - Les Peches Capitaux - Gula)





30 de jan. de 2026

Má poesia - 1


 

 




Lá fora, a chuva.

Dita assim, a cada dia,

Mil vezes repetida,

É só a vida

Ou má poesia?




27.8.2007

(Ilustração: Henri Rousseau - un matin de pluie 1896-97)



 

  

29 de jan. de 2026

sete pecados: avareza

 





quando passas pisando pétalas

maceras com teu jeito o meu peito

e deixas ao longo dos teus passos

esses traços que meus abraços

não alcançam quando te sigo

e por isso como um mendigo

vou colhendo cada flor pisada

ao longo da tua jornada

coleciono-as como um avaro

trato cada uma delas como o meu ouro

guardo cada uma delas como o meu tesouro

são elas o meu tesouro mais caro

e elas – cada flor que tu pisaste

desde as pétalas até a haste

somente a mim me convêm

só eu posso achá-las as mais belas

por isso te digo que nenhuma delas

nunca vou deixar para mais ninguém




9.1.2026

(Ilustrção: Jacques Callot - Les Peches Capitaux - Avareza)













26 de jan. de 2026

OS SEIOS DE SHARON STONE

 



Cinéfilo de carteirinha, não perdia um só filme de Hollywood. Lia, recortava, guardava tudo sobre Hollywood. História, atores, atrizes, diretores, roteiristas, produtores, técnicos. No cinema, era o último a sair, a ler a longa ficha técnica de cada filme. Vida social, nenhuma: era emprego, casa e cinema. Do salário, cada centavo jogado na paixão. O engraçado, no caso de Rodolfo (o nome desde o batismo a antecipar a tara por cinema, por Hollywood), o engraçado é que não sonhava ir aos Estados Unidos ou encontrar seus ídolos. Recobria as paredes do velho sobrado, herança dos pais, com fotos e cartazes dos filmes, dos astros, das estrelas, numa cidade de papel e sonho. E lá vivia.

Mas ficou realmente maluco, de quase ser internado, quando assistiu Basic Instinct, com Sharon Stone. Já a conhecia, claro. Já havia visto outros filmes com ela, claro. Mas esse o deixou fora de si, totalmente ensandecido pela beleza da moça. Não tanto o impressionara a famosa cruzada de pernas, o entrevisto triângulo que deixara, mundo afora, muito marmanjo a estrebuchar de desejo. Não. Impressionara-o aquilo que o filme apenas insinuara e ele apenas imaginara: os seios de Sharon Stone.

A ver e rever o filme, perdeu a conta das vezes em que mergulhou naquele colo. Em sonhos e alucinações de quase não voltar. Ganhou ares de Norman Bates com olhos fundos do Vampiro Lestat. Sonhava acordado e acordava sonhando com os seios de Sharon Stone.

Drogas, diagnosticaram os colegas; vai perder o emprego, concluíram os poucos amigos. E internaram-no numa clínica de recuperação de drogados. Mas eles não sabiam nem podiam nunca imaginar, e ele jamais confessaria, que sua droga eram os seios de Sharon Stone.

Sarou. Ou melhor, superou. Voltou à vida normal. Continuava, no entanto, tarado por filmes de Hollywood. Só de Hollywood. Com um detalhe: nunca mais viu outro filme com a atriz de seus sonhos e pesadelos, recusava-se a ler qualquer matéria em que ela estivesse, não falava nunca em seu nome. Mas, em nenhum dia, nesses últimos catorze anos depois que vira Basic Instinct, em nenhum momento, ele deixou de sonhar com os seios de Sharon Stone.

Envelhecia, mais do que os outros. Com trinta e seis anos, cabelos brancos, rosto macerado, mãos enrugadas, articulações endurecidas, andar trêfego, olhos baços, era velho, muito velho. Amigos, os poucos que ainda falavam com ele, insistiam: vá ao médico, vá ao médico. Mas Rodolfo sabia que seu mal era incurável: morria a cada dia um pouco por obsessivamente imaginar como seriam os seios de Sharon Stone.

E então, numa manhã, arrastando-se para o trabalho, andar cabisbaixo, num átimo de sonho, os olhos iluminaram a foto enorme, capa central da revista: Basic Instinct 2. E lá estava ela, a inominada, o sorriso amplo, e os seios, os seios brancos claramente delineados sob a camisa preta e transparente, os seios enfim na tela de cinemascope, em technicolor. Os seios de Sharon Stone.

As pernas tremeram, os olhos nublaram, o chão se abriu. E Rodolfo mergulhou nos seios de Sharon Stone.

Acordou na cama de um hospital público, numa enfermaria lotada. Gente de branco acudia gemidos, estancava hemorragias, auscultava corações, engessava pernas, limpava feridas. E ele ali, só, inútil, trapo jogado ao leito, pedaço de película rasgada. Mal sentia o próprio corpo, os membros frágeis. Tentou um gesto, tentou uma lembrança: nada. A mente, tela vazia, oca, filme sem diretor, sem atores, sem enredo, sem efeitos especiais. Nada. Tentou gritar, mas o filme era mudo. Só lhe restavam os olhos a filmar em vinte e quatro quadros por minuto aquela gente estranha. Desistiu de entender, desistiu de si. Olhou para cima, o teto de sombras e luzes. Aos poucos, formaram-se nuvens, depois rostos, em seguida cenários. E de repente, a visão, como noite americana: as paredes do esquecido e distante sobrado, ali. Projetados, cartazes e mais cartazes e, entre cowboys, guerreiros, anões, figurantes de mil filmes, anônimos e loucos, o contorno de um seio, depois o outro. Os bicos róseos, a aréola suave sobre a pele alva, levemente arqueados, arfantes e belos, seios de deusa ou ninfa. E mostravam-se para ele, e ofereciam-se para ele, duas taças transbordantes de sonho e néctar, os seios de Sharon Stone.

Mas Rodolfo não se lembrava mais de quem seriam e não tinha a mínima idéia por que, ali, naquele ambiente confuso e difuso, de dor e desamparo, ele, um desconhecido até para si mesmo, desvalido e desgraçado, via, ali, naquela tela branca, em cinemascope e technicolor, como a mais bela visão que um homem pode ter na hora derradeira, no fotograma recuperado e nítido, a imagem de um par de seios.





17.10.2006

23 de jan. de 2026

AI DE SI

 


Um continente: ACIREMA DO SUL. Um país: LISARB. Uma cidade: SARVAL. Uma rua: inominada. A casa pequena existe. Nem simples nem pomposa. Apenas existencial. Lá não há dor. A morte apenas resistida espreita. Joana ao espelho desconversa o tempo. Vê não no rosto mas no espelho a escura mancha de cinquenta sustos. No corpo o seio ao solo deriva. No espelho estrelas contempla. Ilusão. Espelho vira vida e vida aresta da noite. Joana não pode chorar. Sorri apenas não de si mas para o futuro. Qual futuro? De Lisarb? Lisarb é só presente. De Acirema? Acirema é só passado. E Sarval? Incrustada na pedra Sarval é o reflexo de um ponto perdido entre matas e rios. No oco da montanha. Parou. Mas Joana não sabe. Joana é apenas a mulher de uma era que sobrevive. E Joana está no espelho. Fora nas ruas no mormaço do meio-dia há loucura e dor. Joana pensa. Espelho reflete. E Joana vê no cristal aquilo que seu cérebro cria. Não gosta do que vê. Sombrias imagens em fumo e névoa. No centro um furo rubro. Sangue. Por ele vem. Através dele entra a morte. E a morte está vencendo a batalha decisiva. No sangue podre escorre a existência. Não há limites. Não há resistência. Mas Joana não entende os porquês. Joana não tem perguntas. O espelho reflete o falso e o verdadeiro. E Joana não distingue em si a imagem de dentro de si que em sangue explode para a morte e Joana mergulha numa casa nem rica nem pobre de uma rua inominada de Sarval para o inferno de Lisarb como bomba que destruirá Acirema.



20.12.94

(Ilustração: Albert Marquet - desnudo a contraluz)

20 de jan. de 2026

17 de jan. de 2026

Trova: corre o rio da vida

 


 

Corre o rio da vida

Para o mar-oceano

E não há investida

Que perturbe seu plano.

 

1.3.2022

(Isa Galindo - ciranda da praia do Cabo Branco)

 

 

14 de jan. de 2026

Trova: alguns chamam haikai

 







alguns chamam haikai

mas eu chamo haiku:

porque tu dizes ai

quando como o teu cu




21.8.2018

(Ilustração: Frida Castelli)

11 de jan. de 2026

POEMAS (QUASE HAIKAIS) – A RÃ

 




1.

Sussurra o vento: psiu!

sem bulha! Na tarde – um Ploc!

– Mergulha a rã



2.

No velho lago, pula

a rã: dia aziago,

sem amanhã.



3.

Não se ouve à tarde o

baque no velho tanque

do pulo da rã.



4.

Que se destranque

na tarde o pulo da rã

no velho tanque.



5.

Chap, chap, chap! Que

foi isso no meio da tarde?

A rã – no tanque.





3.11.2019 / 29.10.2025

(Ilustração: Auguste Renoir - La Grenouillère (o lago dos sapos) - 1869)











8 de jan. de 2026

tudo é relativo (talvez uma visão ingênua)

 



com uma faca descasca-se a fruta

com a mesma faca mata-se uma pessoa

a tecnologia – e a faca é um objeto tecnológico –

não é má nem é boa

só depende de que não caia na mão de um filho da puta

e isso é bastante lógico



tudo na vida é relativo

um truísmo do velho cientista

porque tudo depende do ponto de vista

e não do que está escrito em qualquer livro

seja ele profano ou sagrado – mas principalmente sagrado

pois no sagrado se escrevem mentiras eternas

enquanto no profano há verdades que mudam de lado

sejam elas antigas ou modernas



agora muitos temem a tal inteligência artificial

talvez ignorando que ela é apenas uma tecnologia

se cair nas mãos de alguém do mal

entramos todos numa fria

mas se bem usada para o progresso da humanidade

pode ser a ferramenta que nos ajude

a dar ao ser humano a plenitude

para sair da barbárie antes que o mundo ainda mais se degrade





16.12.2024

(Ilustração: robô, gerado por IA)









5 de jan. de 2026

Para Clara Nunes

 





Não sei se é verdade ou conto de areia

A voz clara e potente

Que cantava o canto dos orixás

Não sei de quantos adeuses

Se faz a saudade do seu canto

Quem chamou para o infinito

A maré cheia desse canto

Quem chamou

Quem chamou não lembrou

Que maré que vai nunca volta

Deixa na areia o passo vago

Mas a voz que me desperta

Desperta no sangue do povo

O poder de cantar e cantar de novo

Um poder que nada para

A saudade sem fim dessa mulher

A voz potente – a voz de Clara




17.4.2025

(Ilustração: Clara Nunes - foto de Wilton Montenegro)


2 de jan. de 2026

o viajante

 




vaguei um dia pelas estrelas da ursa

quando estive cavalgando

pelas planuras da europa

o corpo gelado nas alturas alpinas

os pés fincados

na floresta amazônica



navegador do cosmo

pelos mares ocultos

dos deuses de um olimpo decadente

sou fernão de magalhães

a dobrar todos os cabos

que vestem fardas verdes

desnutridas de esperança



descobridor das estradas dos mares

sou colombo a sobrenadar

com as galeras santa maria

e mais a pinta e mais a niña

sobre os cascalhos dos quartéis

para molhar no vinho

que virou vinagre

as insígnias dos generais



pedro dos álvares sou cabra cabral

para fincar no peito de cada negrinha

como marco da corte portuguesa



o desejo de decepar bem decepado

a mão suja que o rei dom joão

ousou limpar em cada carapinha



mulato ou negro retinto

nasci na noite do cruzeiro

como descendente direto

daquele capitão do mato

que riu da febre que matou

o bandeirante genocida

enganado pelas pedras verdes



roto e faminto me empreguei

nas fazendas dos paulistas

colhi mais miséria que café

e deixei em cada eira

uma lasca de minha pele



segui minha jornada sem rumo

na coluna de outro capitão

que no mato plantou revolução

semente que não medrou

semente que só ficou

como ex-futuro baobá

dentro de cada peito

de preto pobre e favelado

que ainda arde de febre e dor

por um tempo sem desigualdade



viajo por todas as matas

o corpo de onça pintado

com as cores do urucum

como negro ou tupi ou tapuia

prego no peito do genocida

o prego que roubei da cruz



cruzo mares desde europa

até a foz do amazonas

e depois me espalho por aí

do oiapoque até o chuí

a plantar minhas estrelas

e a colher muitas florestas



bebo os rios de águas limpas

que os malditos empestearam

e os vomito sobre a cidade eterna

com todo o mercúrio e todo ouro

que enfeitaram suas bocas podres

enterro nas grotas das montanhas

a língua de fogo das fornalhas

que derrete o ferro das gerais

chuto a bunda dos financistas

que atiçam a sanha dos racistas

e grito contra gente que não presta

falso patriota que me detesta



sou sim o viajante vigilante

que não nega cada delito

registrado nos gritos do bem-te-vi

e é assim que assumo

meu próprio grito que ecoa

até pelas estrelas da ursa

quando planto meus pés feridos

nos píncaros alpinos podres

de uma europa que não há

e deito as penas do meu cocar

no leito agônico dos rios mares

e vestido com o manto tupinambá

planto a sonhada pátria que um dia virá





25.9.2025

(Ilustração: Manto Tupinambá na Biblioteca do Museu Nacional no Rio de Janeiro).

30 de dez. de 2025

Quem é Luana?





quando a lua enluara um luar

no leito de Luana

ela levita leve e leitosa à luz do neon



são noites de pluma e brisa

e a pluma conduz Luana para o nirvana

e a brisa conduz Luana para a luz do neon



ela aspira em si mesma os respiros do rio

e o rio lento e deleitoso corre por suas veias

e o rio lento e deleitoso abre as portas

para estranhos desejos e apelos



ardem os seus pelos

enrola rolos de areia sua língua trêfega

em mares de algas e sal mergulham seus olhos

estrugem onças dentro de seu cérebro



do nirvana à dor suprema o salto mortal

à luz da lua de neon

espelha os caminhos que se abrem à frente



têm carpetes de veludo esses caminhos

que levam Luana para os confins das estrelas

que levam Luana para os confins do universo




5.10.2025

(Ilustração: Andre Favory - una mujer dormida junto a la ventana)

26 de dez. de 2025

dezembrismo





quisera ser um gato para enrodilhar-me

num canto qualquer da minha casa

e dormir dezoito horas por dia

para livrar-me desse dezembrismo

que me açula em tempos de luzes

essas luzes que obnubilam meus olhos

e me dão vontade de dormir como um gato



felino e felinianamente dormir e esquecer

esquecer essa porra toda - o vermelho

desse ridículo gordo papai-noel-santa-claus

ou que nome dão a esse velhinho idiota



bloquear os pedidos de boas-festas

tão falsos quanto são falsos todos os presépios

a comemorar um nascimento que não houve

numa falsa manjedoura e uma estrela falsa

três reis ridículos – de onde? – a cortejar

um menino que devia ser pobre

que devia trazer a palavra da revolução

e essa palavra se perdeu pelos caminhos

da estupidez de religiões de gelo e gado



esse menino - não representa mais as crianças

que as guerras matam hoje mundo afora



quisera tanto dormir e ronronar como um gato

para não olhar com meu parco olhar felino

as caras burguesas de falsa felicidade

que duram o espoucar dos fogos de artifício



ah como eu gostaria de me enroscar

em mim mesmo e desenrolar em sonhos

meu dezembrismo em tapetes de fogo

que queimassem a estupidez humana

nesses tempos de falsas festas e falsas luzes

quando a humanidade está mergulhada

nas trevas da estupidez e das guerras inúteis

com é inútil também [e como eu o sei]

o meu protesto neste mais que inútil poema



15.12.2025

(Agnolo Bronzino - Sacra famiglia Panciatichi or Madonna Panciatichi)