18 de jan de 2012

Versos perdidos

(A. Andrew Gonzalez)


Ontem à noite em leito insone
pensei nuns versos maravilhosos que havia de escrever
assim que de posse de papel e tinta.
Um poema a deixar boquiabertos
todos que o lessem. Uma obra-prima a ser
transcrita em todas as antologias
de todas as editoras. A ser estudada por mestres
de todas as universidades e levadas entre as
folhas de cadernos e agendas de todos
todos os estudantes.
Versos tão fortes
e belos
e místicos
e reais
e profundos
míticos loucos verdadeiros emocionantes múlti
épicos e líricos que
alguém os colocaria a circular
no espaço virtual da internet. E lá, talvez,
na Austrália, no Japão, na Europa
ou na América (do Sul, Central e do Norte) morta,
um mísero escrevente brasileiro saudoso
da Pátria, em seu exílio voluntário,
esquecesse por um breve momento
o trabalho e o dólar suado de cada dia,
para lê-lo com ternura
e imaginar o sonho que estaria sonhando
se no Brasil ainda estivesse. E na tela
de um loucomputador
em mil pontos de luz transformado, o poema
ganharia o sentido de vidas só de esperanças vividas.
E comoveria. E abriria os corações a chamas
mais profundas de amor e solidariedade.
Pois é, mas a internet
e todos os mestres e alunos e expatriados
e apátridas – todos –
ainda vão ter de esperar pelo magnífico
poema que, à noite, em meu leito insone
imaginei.
Ao levantar-me após delírio,
o sol da manhã de outono desfizera
como gota de orvalho em folha morta
o poema.
E restou, apenas, na boca, o saibro amargo
da decepção.
São Paulo, 23.5.1995



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