10 de fev de 2018

Uns versos que havia de escrever









Ontem à noite em leito insone

pensei nuns versos maravilhosos que havia de escrever

assim que de posse de papel e tinta.

Um poema a deixar boquiabertos

todos que o lessem. Uma obra-prima a ser

transcrita em todas as antologias

de todas as editoras. A ser estudada por mestres

de todas as universidades e levadas entre as

folhas de cadernos e agendas de todos

todos os estudantes.

Versos tão fortes

e belos

e místicos

e reais

e profundos

míticos loucos verdadeiros emocionantes múlti

épicos e líricos que

alguém os colocaria a circular

no espaço virtual da internet. E lá, talvez,

na Austrália, no Japão, na Europa

ou na América (do Sul, Central e do Norte) morta,

um mísero escrevente brasileiro saudoso

da Pátria, em seu exílio voluntário,

esquecesse por um breve momento

o trabalho e o dólar suado de cada dia,

para lê-lo com ternura

e imaginar o sonho que estaria sonhando

se no Brasil ainda estivesse. E na tela

de um loucomputador

em mil pontos de luz transformado, o poema

ganharia o sentido de vidas só de esperanças vividas.

E comoveria. E abriria os corações a chamas

mais profundas de amor e solidariedade.

Pois é, mas a internet

e todos os mestres e alunos e expatriados

e apátridas – todos –

ainda vão ter de esperar pelo magnífico

poema que, à noite, em meu leito insone

imaginei.

Ao levantar-me após delírio,

o sol da manhã de outono desfizera

como gota de orvalho em folha morta

o poema.

E restou, apenas, na boca, o saibro amargo

da decepção.
São Paulo, 23.5.1995




 (Ilustração: Rick Beerhorst ) 

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