eu ateu convicto confesso
a ti e a mim mesmo que às vezes
chovem pétalas de rosas negras
sobre meus versos mais estranhos
anoiteço então em meu casulo
para pensar por que pétalas pretas
chovem sobre meus versos vagos
volto à voragem de meus vinte anos
quando o jovem jogava o jogo
de imaginar mundos novos para si
e esse jovem criador de futuros
era no que eu iria me transformar
quando os caminhos escolhidos
seriam cobertos de pétalas
de rosas negras
e espinhos impensados
a ferir feridas que não se curam
nem com os cardos venenosos
de espantos colhidos pelas trilhas
que descem de montanhas mágicas
mas cultivar rosas negras era preciso
[as rosas que chovem pétalas negras]
para macerar com elas mezinhas mágicas
que não se misturam com o veneno
das receitas mal cosidas
nos versículos dos livros sagrados
que os pés pecaminosos de profetas
pisoteiam nos caldeirões de sabás
nas selvas profundas da minha mente
enquanto chovem pétalas de rosas negras
sobre o espanto de meus versos estranhos
e eu que sou tanto ateu confesso enfim
que não peço perdão pelas perfídias
das rosas negras eclodidas no meu jardim
6.9.2026
(Ilustração: Ricardo Dunkley)


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