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5 de out. de 2026

confiteor





eu ateu convicto confesso

a ti e a mim mesmo que às vezes

chovem pétalas de rosas negras

sobre meus versos mais estranhos



anoiteço então em meu casulo

para pensar por que pétalas pretas

chovem sobre meus versos vagos



volto à voragem de meus vinte anos

quando o jovem jogava o jogo

de imaginar mundos novos para si

e esse jovem criador de futuros

era no que eu iria me transformar

quando os caminhos escolhidos

seriam cobertos de pétalas

de rosas negras

e espinhos impensados

a ferir feridas que não se curam

nem com os cardos venenosos

de espantos colhidos pelas trilhas

que descem de montanhas mágicas



mas cultivar rosas negras era preciso

[as rosas que chovem pétalas negras]

para macerar com elas mezinhas mágicas

que não se misturam com o veneno

das receitas mal cosidas

nos versículos dos livros sagrados

que os pés pecaminosos de profetas

pisoteiam nos caldeirões de sabás

nas selvas profundas da minha mente

enquanto chovem pétalas de rosas negras

sobre o espanto de meus versos estranhos



e eu que sou tanto ateu confesso enfim

que não peço perdão pelas perfídias

das rosas negras eclodidas no meu jardim



6.9.2026

(Ilustração: Ricardo Dunkley)