25 de mai de 2016

as velhas mangueiras




(Foto da internet, autor não identificado)







vem o caminheiro


por longo caminho através de vales e sebes


os pés rasgados pelas pedras


o peito cansado os olhos turvos


sede e fome 


vem o caminheiro


pela tortuosa trilha das montanhas


suas vísceras encolhem querendo comer-se


como a cobra ao próprio rabo






vem o caminheiro por veredas e destinos


e então 


à beira do caminho deserto encontra o caminheiro


o alívio para seu desalento


a copa verde o tronco austero o fruto maduro


a mangueira augusta pende seus galhos férteis


pensa o caminheiro


umas pedras para derrubar os frutos maduros


umas pedras


e os frutos amarelos e copiosos estarão ao meu alcance






entre o ato de agachar-se e o ato de tocar a primeira pedra


reflete o caminheiro


não é mangueira árvore que se apedreje


não é mangueira árvore a que se deva fazer mal


mangueira é árvore robusta 


seu tronco nodoso desafia


seus frutos pendem fora do alcance às vezes


coragem é preciso para abraçar seu tronco


galgar seus galhos


acariciar seus frutos 


apalpá-los com mão de seda


antes de apanhá-los e sugá-los






assim fez o caminheiro faminto


num último esforço de doçura e vida


desafiando a própria fraqueza 


subiu lento e constante pelos galhos da bela mangueira


tocou seus frutos escolheu os mais maduros


desceu feliz






e chupou-os com a delicadeza dos namorados


e sugou seu sumo com o prazer dos amantes


e seu sumo doce aplacou sua sede


e sua carne tenra aplacou sua fome


e o caminheiro agradecido beijou ternamente


o nodoso tronco da velha mangueira






assim são as mangueiras ao longo do caminho


dão seus frutos a todos os caminheiros


não os distinguem entre ricos e pobres


simples e cultos 


miseráveis ou ministros


religiosos ou ateus


a todos 


as velhas mangueiras dão com prazer


seus deliciosos frutos 


seus deliciosos sumos


nada querem senão que tenham um pouco


somente um pouco de carinho e respeito


por aqueles momentos de prazer inaudito


que seguirão para sempre no passo do caminho


e não sairão jamais de suas doces recordações






ah


as velhas mangueiras ao longo dos longos caminhos da vida





5.5.2016




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