29 de nov. de 2016

babava coca-cola



(Dino Valls - La Nave de los Locos)







babava coca-cola

como um poeta concretista

cuspia caroços de azeitona

como um judeu do velho testamento

olhava torto para os companheiros

como se quisesse exorcizar alguns demônios

arrotava pão de queijo

como um mineiro de sete lagoas

cantava uma melopeia sem sentido

como um gaúcho laçando boi

cheirava pó de arroz

como um carioca da zona sul

peidava picadinho de couve

como um guri da zona leste

falava mal do governo

como um motoqueiro sem destino

dançava um tango arretado

como se nadasse no rio da prata

tocava a sanfona de sete baixos

como um nordestino em são paulo

pescava e fritava um pirarucu

como pintasse um quadro de picasso

sonhava sonhos impossíveis

como se cavalgasse o rocinante

perdeu-se na baba de coca-cola

como todo poeta um dia

sonhou perder-se e era

enfim e nos finalmentes

a sombra de sua própria sombra


19.11.2016

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