14 de ago. de 2015

POEMAS DE AMOR E SEXO


  

 (Cecily Brown.- two figures in landscape)
  
1.   língua

no amor
quem
tem
 língua
não morre
à míngua


2.   fruta


tu quando acabas
tem teu gozo o gosto
de jabuticabas



3.   dolência


silêncio no quarto
depois que me chupas
sinto-me farto

4.   fogo



quero-te chama
mesmo que molhes
minha cama



5.   sim!


mordo-te
o seio
gritas
que o gozo
já veio


6.   apelo


a teu apelo
não nego fogo:
chupo teu grelo,
colho teu gozo


7.   união



vem, tu dizes,
meu corpo é chama
e então somos felizes
na mesma cama


8.   tesouro


fechado o ânus como um cofre
há somente uma chave para abri-lo
por isso, para entrar, o pau sofre
faz seu dono perder um quilo
e precisa agir com toda a perícia
mas depois que entra – que delícia!



9.   intimidade



quero a intimidade da carne
sem nenhum pudor
por isso, teu pequeno botão
molho com muito charme
até abri-lo na mais bela flor



10. cilícios



a ti me entrego em holocausto
na chama que nasce de teu vício
é teu corpo em transe um fausto
que compensa o meu suplício
não te nego e tu não me negas
mesmo quando aperto teus cilícios
sou eu a morrer em mil entregas



11.  atriz


na cama-palco em que atuas
fazes-me tu mais feliz
quando tuas ancas nuas
abrem-se nesta disputa
entre teus encantos de atriz
e o nobre destino de puta


12. úItimo



enquanto no banho te lavas
penso, louco por foder-te:
vieste puta como as  escravas
mas não é assim que quero ver-te
se por qualquer dinheiro me davas,
quero sim ser o último a comer-te


13. pressa



dispo-te em dois segundos
em louca ânsia de amar
no entanto correste mundos
e fundos
para achar
a mais linda lingerie
que - desculpe, eu não vi –
pudesse me agradar



14. aquecimento global



beijo-te, beijo-te toda
desde a tua nuca nua
à ponta dos dedos dos pés
beijo- te, sim, aqueço-te toda
antes que o mundo se aqueça
antes que o mundo se foda



15. prazer solitário



gosto, sim, do teu cheiro
do teu gosto eu gosto, sim
vibro com teu gozo
anseio por teu corpo
tua pele nua, teu olho
tua ilogicidade no sexo
teu prazer no inusitado
gosto, gosto, sim, de
estar contigo, meu amor
mas, ah, gosto mais
- e hás de me perdoar
por isso – meu amor
gosto mais ainda de
pensar em tudo isso
quando tu não estás!



16. afterglow



sabe aquele instante
depois do gozo, quando
estás entre a vigília e o sono
nem dormida, nem acordada
no lusco-fusco da consciência?
pois, é aí, meu amor, que eu
tenho o maior tesão por ti
é quando, então, entre tuas
coxas nuas me ajoelho, e
colho e sugo o sumo
da tua vulva-lua ainda
úmida o sêmen que,
com tanto júbilo, acolheste
sou nesse momento
o mais feliz dos homens,
meu amor semiadormecido.



17. poemas de amor



que sejam breves
os poemas de amor
breves como o leve
espasmo
de teu corpo,
meu amor, na hora
do orgasmo.



18. eterno



para que no me olvides
disseste
e enfiaste as unhas
em minhas costas
não gritei
não xinguei.
apenas te olhei
e, como se fosse possível
esquecer-te,
deixei
com minha língua
um gosto amargo
 em tua boca
 e gozei.



19. flor de maio



abriste-me teu corpo
com todo o teu perfume
com todo o teu orvalho
por uma noite apenas
apenas por uma noite



20.      tesão



desce minha boca
ao teu ventre
louca
de desejos
abres-te à língua
e entre mil beijos
e gemidos tu choras
doida que eu te foda
e imploras
 mais que teu grelo,
que eu te coma toda



21. paixão



o arrepio
do teu seio
não é de frio
mas de receio
de que não
te morda
de que não
te foda



22. liquidez



chupas-me
 e me olhas
chupo-te
e te molhas
e também:
chupo-te
e me olhas
chupas-me
e te molhas



23. simples assim



são tão simples as curvas
do teu corpo
são tão diretos os caminhos
do teu corpo
são tão previsíveis os fluidos
do teu corpo
são tão comuns os anelos
do teu corpo

mesmo assim me perco em curvas
mesmo assim retomo caminhos
mesmo assim bebo os fluidos
mesmo assim procuro os anelos

porque, amada,
mais que curvas, caminhos, fluidos e anelos
és o gozo que encontro em cada toque
cotidianamente
sem qualquer prurido, sem qualquer culpa



24.      dia de preguiça



hoje não, amor
que é meu dia de preguiça

sim, eu sei do que tu gostas
eu sei bem como tu gostas
e daqueles jeitos todos
tu me dás, depois, muito cansaço

então, hoje não, amor
que meu dia é de preguiça

sim, eu sei que promessas
foram essas
que beijos foram depregados
e grudados
e tudo o mais
mas, e depois, amor, e depois?

não, é melhor não, que hoje
é meu dia de preguiça

gosto, sim, amor, quando tua
língua me percorre, quando
tuas umidades me esquentam
quando nua
te abres e te abandonas
mas, enfim, hoje
não que eu não queira
não que eu não deseje
mas, enfim, é sim, meu dia
meu dia de preguiça

e por ser hoje o meu dia
de preguiça, vem aqui perto
e deixa
que eu te veja apenas
que te olhe
que me molhe
só com o pensar
sem tocar
 sem outro tesão
que o dos olhos

claro, amor, amanhã
de manhã, talvez
mas, sim, com certeza
com absoluta certeza
amanhã à tarde,
que hoje...

hoje é meu dia de preguiça



25. oração 1



de joelhos
com minha língua
rego teus pentelhos



26.oração 2



de joelhos ela fica
a olhar-me enquanto sua boca
abocanha minha pica



27. oração 3


quero apenas teu gemido
enquanto deixo o teu grelo
muito bem lambido


28. oração 4



teu corpo entre meus joelhos
minha pica entre teus peitos
fodo-te de todos os jeitos


29.oração 5



de joelhos tu estás
de joelhos também estou,
quando te como, assim, por trás


30.oração 6



ajoelhas-te sobre meu ventre
e ganhas o mundo
com minha pica bem no fundo



31. oração 7



de joelhos sobre minha cara
minha língua encontra
a pérola mais rara


32. oração 8



preparas-te para a foda
de joelhos sobre a cama
tua bunda apaga o sol
e teu ventre vira chama


33. oração 9



não, não há escrava nem senhor
quando, abraçados e nus, de joelhos
nossos sexos trocam fluidos de amor



34.tempo



há o tempo de querer-te
- e beijo os teus lábios
há o tempo de foder-te
- e ficamos mais sábios


35. muito bom



muito bom quando
esorrego assim, chupando
teu grelo, tua fenda, e nego
que gozo na renda de tua
bunda nua, na funda caverna
que esconde – oh! onde? onde? -
no segredo do teu espasmo
o enredo do teu orgasmo



36. despedida



depois do amor, ainda nua,
lânguida, abotoas o sutiã
então eu sei que a lua
já cede lugar à manhã



37. nudez



 - quero-te nua
como os lírios
do campo
sorriste
 e num gesto amplo
tiraste os cílios



38. vida



sopro de leve os pelos
de teu púbis
e abro teus segredos
os lábios retêm teu grelo
e tu gemes baixinho
de novo o sopro, de novo teus pelos
se arrepiam na breve aragem
é só a vida gozando em minha boca



39. um dia, um gato



chamas-me gato
enquanto coleio pelo teu seio
e desço até teu ventre
e, antes que digas – entre –
só um pouco te arranho
e passeio e te arrebato
te dando um bom banho
de língua de gato. 



40.      livro



abro tuas pernas
como abro um livro de aventuras
não, expresso-me mal, minha querida
não são apenas aventuras
o que busco entre tuas coxas nuas
mas, sim, muito mais, busco a ventura
a suprema ventura do teu gozo



41. haikai ou haiku



alguns chamam kaikai
eu chamo haiku
porque tu dizes ai
quando como o teu cu



42.       onde?



- sabe o conde?
 - que conde?
 - aquele que se esconde?
 - esconde onde?
 - ora, onde o sol se esconde...
- ainda não sei mesmo onde...

(e, mais uma vez, eu como seu cu)


43.depois



agora você me diz:
depois que você goza
fica quieta ou fica prosa?
ou só um pouco feliz?



44.      boca



quem tem boca
não morre à míngua:
se falha o pau
nunca falha a língua



45.merda



não reclames que é de pobre
a merda que teu cu caga:
quando minha pica te enraba
encontra nele a função mais nobre

(Natal, RN, 7.6.2011)


46.      se eu fosse...



imaginá-la a cagar me faz um gosto e um desgosto:
vejo-a a liberar a massa pastosa e fétida
que, de qualquer forma, é acariciada
pelas carnes íntimas de você
coisa que eu, sem acesso a esse universo,
penso valer menos que um troço
que um naco de merda
ah!, se pelo menos merda eu fosse,
a sua merda!


47.      velas na cama



pedes que eu acenda velas
velas de luz e desejo
e que as espalhe pela cama

e  coberta de pejo

usas todas as velas, todas elas,
para me queimares

boba, eu penso, que velas que nada
tu me queimas já no primeiro beijo



48.      conversão



tu me dizes que te vais converter
a uma seita qualquer
então, mulher,
grave questão se levanta
que o mundo perderá uma puta

mas não ganhará uma santa




fim


9 de ago. de 2015

VINTE POEMAS DE INVERNO E UMA PEQUENA CANÇÃO DE PRIMAVERA



(Antonio Tordesillas)



1. 

neste inverno
que seja eterno
o teu gozo


2. 

vem, amor, pra debaixo do calor
de nossas cobertas; fica,
fica e acaricia minha pica


3.       

não amor eu quero contigo
fazer:
quero do teu umbigo
ao teu sexo
me
 escorrer


4.       

lábio com lábio
não na boca, imagina!
mas meu lábio
- mais sábio -
lá, em tua vagina!


5.     
chupa, chupa por entre
as pregas de minha glande,
o calor que fica
em minha pica
 - e que se expande -
quando sai de teu ventre


6.    
enrola teu pelo
com minha saliva
em teu grelo


7.       

o lençol inunda
com todo o gozo
que escorre de tua bunda


8.       

faz de teu corpo
o cais
onde quero
sempre mais


9.       

em cada espasmo
do teu corpo,
dá-me o teu orgasmo


10.   

não refreio
meu anseio
em teu seio
(fruto de ouro):
quero todo o veio
de teu tesouro

11.   

colho com a língua
     o gozo que vem lento
    e forte
  do fundo de teu corte


12.   

goza mais, amor, goza,
enquanto chupo o teu cravo:
se a língua tece a prosa,
faço versos como teu escravo


13.   

quero-te onda
para afogar-me em teu ventre
quero-te rio
para afundar-me em teu gozo
quero-te lago
para afugentar os meus temores


14.   

não sentes o frio que vem de fora
porque aqui bem quente
há um pau que te devora


15.   

no frio, o agasalho
da tua boca
aquece o meu caralho


16.   

peço-te gozo e me dás
teus licores;
peço-te tesão e me dás
teus humores


17.   

no teu grelo esfregas
minha vara
e te entregas
à sanha da minha tara


18.   

lambes de cima até em baixo
minha caceta,
enquanto me afogo lá em baixo
nos sucos de tua boceta

19.   

valquíra do orgasmo e da beleza,
cavalgas e não foges à luta:
dá-me, a mim, a certeza
de que cumpres no meu pau
tua doce vocação de puta


20.   

exausto, desfalecida
te deixo:
a vara antes enlouquecida
é freixo
no meio do rio;
assim,
minha sanha e teu gozo
ao fim,
jogaram no fogo
este inverno tão frio



uma pequena canção de primavera



tu sabes o que eu era,
eu sei o que tu desejas:
espera um pouco mais, espera,
prova do bolo todas as cerejas,
amansa aqui dentro a fera
embora cansada já estejas;
eu sei que te desespera
este inverno, mas que sejas
ainda um vez a quimera
de ilusões benfazejas,
antes que chegue a primavera.






25 de jul. de 2015

um poeta



(Haikai de Bashô, a rã)





parece que perco o meu tempo procurando


buscando um verso


uma linha que seja que seja


que seja


e gasto o dia todo


navegando pelo mundo


clicando aqui e ali em busca


sempre em busca


de uma pepita dourada


em forma de verso


e quando encontro afinal


um poeta


um verdadeiro poeta


meu dia está


mais do que ganho



12.12.2014

19 de jul. de 2015

minha poesia



(Érika Cardoso - 2014)



de todos os ratos que povoam os esgotos
de todos os reis que cagam em seus tronos
de todos os papas que regem carnificinas
de todos os idiotas que pontificam teses
de todos os profetas que vomitam crenças
de todos os falsos que dizem verdades
de todos os puros que fornicam aos sábados
de todos os homens que rastejam como vermes
de todas as mulheres que punhetam seus homens
de todos os crentes que abominam seu deus
de todos os enfermos que se curam por si mesmos
de todos os loucos que conhecem a luz
de todos os poetas que cospem estrelas
de todos os políticos que comem a grama do jardim
de todos os que mentem um dia sim e outro também
de todos os que berram pela guerra universal
de todos os que acreditam na letra de forma
de todos os que gemem nos palácios
de todos os que bolinam no escuro do cinema
de todos os que lamentam e choram
de todos os que riem e se consolam
de palhaços e bêbados
de vermes e pássaros
de paus e flores
de tudo
o que
geme
rasteja
voa
corre
anda
reinventando vida pelo prazer de morrer
morrendo a cada explosão de estrelas anãs
de tudo isso e mais qualquer outra merda
que invente a imaginação de qualquer louco
vive e respira e transpira a minha poesia



18.7.2015

18 de jul. de 2015

natureza morta




(Bruegel)



repugnam-me as naturezas mortas,
frutos e flores inertes num cesto
prontas para o fundo da terra

quero a vida plena e o fruto maduro
escorrendo sumo na boca que o abocanha

escorraçados os deuses,
a morte é só a morte e nada mais que a morte


3.4.2015

7 de jul. de 2015

a morte do palhaço



(Paul McDevitt)



no meio do picadeiro o corpo do palhaço

estendido

estará morto?

apenas dorme fazendo palhaçada - diz um

foi pisoteado pelo elefante - diz outro

mas o circo não tem elefante

o cravo vermelho no peito - foi um tiro - diz um terceiro

e a bailarina chora no canto com medo do lobisomem

que a espera no fundo do corredor para estuprá-la



o menino tem medo do escuro e esconde a cabeça

sob o travesseiro

os monstros sob a cama se divertem



quantos anos tem o palhaço? ou tinha?



a verdade está nos detalhes - advoga o advogado

o vento assobia nos cabelos da mulher barbada

há um aparato policial para prender o assassino

que está à solta no parque de diversões



companheiros a hora é esta - o sindicalista

convoca os operários para uma greve

um risco no céu anuncia a tempestade



no chão do picadeiro chovem flores sobre

o corpo do palhaço

estará ele morto? ou apenas se diverte

com a dor de quem finge que chora sua morte?




no cinema ao lado um filme de David Linch

todos os que fazem parte dele também já estão mortos

prega-se em todos os cantos o fim dos tempos

o homem é o lobo do homem




os sonhos sonhos são - repete o poeta no viaduto

a vida passa voando sobre sua cabeça

se esborracha num dos pilares da civilização




a madrugada traz o pio da coruja

o menino que tremia de medo vestiu sua fantasia de super-herói

talvez ainda haja esperança para os que sofrem

disse alguém já à beira das lágrimas

a lua iluminou a estrada deserta por onde passa

com todas as luzes acesas uma ambulância cheia de porcos




agora você está definitivamente num filme do David Linch

a pasta de amendoim azedou e está coberta de vermes

no asfalto a pele luzidia da lontra desafia todos os argumentos




no picadeiro o palhaço parece que ri dos que choram

na verdade ninguém está chorando

a bailarina resolve enfrentar o lobisomem e pede conselhos

à mulher barbada que louca de raiva enxota as abelhas

que teimam em pousar em suas orelhas cheias de açúcar

não há mais esperança - solfeja o contorcionista

arriscando mais uma manobra no carrinho de rolimã

a anã vestida de freira cheira o cheiro

de mato da flor do peito do palhaço - o olho vidrado




a música explode da orquestra do poço do teatro

as cortinas se abrem para mais um pôr do sol

ninguém acredita que os sonhos sejam apenas sonhos

há no ar um gosto azedo de revoluções passadas




o menino que virou homem-aranha e a bailarina

que anseia pelos braços do lobisomem passam um pelo outro

e não se reconhecem - a lua vai alta no céu

a mulher barbada reclama de fome o contorcionista gargalha

a flor do peito do palhaço está murcha

o mundo está murcho

a vida está murcha

já se foi o tempo em que para tudo havia um motivo

morreu a razão

o palhaço não está morto - suspira e reza

para um deus há muito enterrado

no coração da floresta amazônica




há uma bailarina e um lobisomem - o palhaço gargalha




do fundo do poço a mulher barbada puxa o balde

dentro dele há um menino vestido de lanterna verde

os gatos miam assustados e o bode da sala é abatido com um facão

fechou-se o círculo em torno do altar

vamos todos para para copa - o jantar está servido

há vinho azedo e pão ázimo sobre a mesa




o palhaço não sabe mais se ri ou agoniza




a procissão do cristo morto adentra o picadeiro

o trapezista despenca do sonho e cai na rede de cabelo

da mulher barbada - todos choram e riem ao mesmo tempo

o médico dá a extrema-unção ao elefante que não existe

o circo paga todas as suas contas com as lágrimas do menino




vê-se que o palhaço revira os olhos para o malabarista




o passado está maduro sobre os ombros do lobisomem

a bailarina ajoelha-se em contrição - não está triste

embora chore um pouco

o menino vestido de super-herói dança uma valsa

fazendo piruetas e pintando o rosto - o olho esquerdo

já está todo branco e vermelho - e ele começa a retocar o olho direito

a mulher barbada desespera-se e joga no poço um rosário

as contas bentas que lhe dera um papa




o palhaço já não agoniza e ri - apenas observa




na estrada escura os carros do circo atolam na lama

o elefante inexistente levanta a tromba e aceita o amendoim

que o mendigo lhe oferece

não há esperança depois da curva da estrada

a tempestade aumenta o sofrimento de todos

menos do menino vestido de super-homem

que estala o chicote no lombo de cavalos etéreos




não morra palhaço - uma voz - morra palhaço - outra voz




bailarina e lobisomem atacam a mulher barbada

roubam-lhe a última moeda de prata

o menino está doente o vento suspira nas papoulas

a estrada é longa e longo o pensamento dos homens

talvez haja poemas suficientes para salvar um só

ao menos um - suspira a bailarina

vestido a caráter o menino encanta plateias

salva-se o circo e o elefante brame suspenso em duas patas

toca o tarol com precisão o chefe de cerimônias

anuncia o fim do mundo no globo da morte

o palhaço na garupa da Harley-Davidson gargalha

apagam-se as luzes do picadeiro

poetas e sindicalistas se unem pelo desprezo geral

começa a função - desfilam monstros marinhos

e deusas gregas portando ânforas de ouro

o ciclo se fecha o circo treme e freme a morte entra no globo

o globo da morte entra em convulsão




o palhaço no meio do picadeiro apenas sorri agora




a vida é sonho e os sonhos são pesadelos

os assassinos estão todos despertos e devidamente perdoados

a polícia recolhe os destroços do nada

do viaduto para o mundo grita o poeta - acabou a palhaçada

que vão todos para seus lares e aborreçam-se




cena final e abissal: o menino vestido de super-homem

pisoteia o peito do palhaço


22.6.2015

24.6.2016