9 de ago. de 2018

na minha cama







na minha cama (onde passo mais tempo 

lendo 

pensando 

escrevendo) 

há falta de corpos e concretudes 

nela viajo os meus sonhos 

atormento os meus demônios 

controlo os meus ímpetos 

há em seu longo acolhimento o espanto 

de margaridas e hortênsias orvalhadas 

há caminhos e desencontros 

de antigos desejos e futuros anseios 

sons de ventos que sopram de geleiras 

e o arrulhar de aves em volta de barcos naufragados 

confesso entre lençóis sujos de sêmen 

velhas antropologias autofágicas 

e resumo meus desencantos em linhas tortas 

de versos sem espanto e sem destino 

aos quais entrego o sono e os sonhos 

de vidas que não vivi 

na minha cama (onde me refestelo 

em leituras oníricas 

em pensamentos torpes 

em versos incriados) 

o vento não dói quando perpassa 

pelas feridas não cicatrizadas da solidão da vida 




3.8.20128



(Ilustração: Pauline Zenk - Man on bed in Tanger)





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