12 de ago. de 2018

numa tarde de outono quase inverno








não tenho em mim todos os sonhos do mundo

só os meus sonhos que nem eram tantos povoam minha mente

sonhos que ficaram para trás ou sonhos que ainda estão no horizonte distante

as esperanças que ficaram na fumaça do tempo de uma tabacaria

a que nunca compareci nem para comer um mísero chocolate

os meninos que habitaram em mim estão mortos e enterrados

como a maioria de meus amigos que partiram sem se despedir

a estranheza do mundo não está no contato da vida com a realidade

a estranheza do mundo está nas impossibilidades de vidas que não vivi

e no tudo quanto podia ter sido e não fui porque não estava ao meu alcance

e se beijo a lona como combatente sem nenhum vezo a lutar

com um campeão de boxe que embora já velho e ranzinza ainda é um campeão

é ainda pior a derrota quando o contendor desiste da luta antes do começo

não desisti propriamente mas lutei lutas erradas a vida toda

até gastar as energias que deviam ser conservadas para os tempos gélidos

os sonhos do mundo estão no mundo e não povoam meus pensamentos

no bar da vida a bebida mais doce foi sempre a que continha o pior veneno

e a embriaguez dos sonhos fez de todos os percalços o pesadelo fatal

não há mais caminhos nem pedras que firam meus pés descalços

a estrada mais próxima leva a lugar algum e o lugar algum não é sonho

é apenas o destino final que o dia em que nasci registrou talvez para mim

o fatalismo de todos os que vieram ao mundo sem que o mundo os quisesse

assim vivemos e morremos com o grito de revolta entranhado na garganta

engolido sem chocolate quente ou sem qualquer gesto de humanidade

que resgate um ser que não tem em si mesmo os sonhos do mundo

porque os sonhos do mundo não convivem com os próprios sonhos sonhados

tão inutilmente nas profundezas da miséria e da falta de horizontes

numa tarde fria de outono quase inverno dentro e fora do meu ser 







19.6.2018

(Ilustração: René Magritte)








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