29 de ago. de 2018

pequena morte 4




leio e releio até me turvarem os pensamentos e me cansarem os olhos

os poemas de fernando pessoa seus heterônimos todos e seus poemas ingleses



ouço quantas vezes forem necessárias a nona sinfonia de beethoven até seus acordes

se colarem de tal forma em minha memória que se tornem parte de mim



cheiro o perfume do jasmim nas noites de primavera esse cheiro de lua e fonte

que aciona cada fibra de meu corpo para os prazeres todos da vida



o vinho que degusto não importa de onde venha o vinho tinto e seco

que desce suave para alimentar não só meu corpo cansado mas também minhas lembranças



mas de todos os sentidos o que mais me completa com o doce arrepio da pele

o prazer absoluto do contato de meu corpo com teu corpo meu amor e não só isso

mas também o que vejo em teus olhos que refletem os meus como lagos de luares

o teus arpejos e gemidos quando a corda certa do teu violino é tocada

os teus cheiros de carne em efusão a entrar-me por todos os buracos do corpo

o teu gosto de praias desertas e mares revoltos em paraísos que não pisei

evocados à língua que rompe diques retorcidos de tantas pequenas mortes

que um só dia e uma só noite são nada para encontrar em ti o supremo gozo





26.5.2018


(Ilustração: Juarez Machado)






















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