3 de mar. de 2025

jogo do amor

 




na vida joga-se o jogo

quando o jogo tem regras

mas no amor o fogo

torna a partida às cegas



e perguntam um ao outro os amantes

de mim o que esperas?



se ficamos um do outro distantes

viramos ambos feras

que - feridas pela saudade -

não sabem o que fazer

e perdem toda a sagacidade



se estamos um ao outro ligados

como gêmeos siameses

brigamos como dois soldados

e pedimos a todos os deuses

que morra um para o outro viver



nesse jogo de gato e rato

não há regras nem consciência

jogamos no lixo a paciência

e rasgamos qualquer contrato



não tem portanto regras

do amor esse desvairado jogo

quando tudo pega fogo

loucos ficamos e jogamos às cegas



e quando um do outro pensa ganhar

é porque já não há jogo nenhum para jogar





1.12.2024


(Ilustração: William-Adolphe Bouguereau (1825–1905) - Fight, 1864)




28 de fev. de 2025

Ingratidão

 



Lamentas o tempo

Em que – desatento

Deixaste que a vida

Passasse por ti,

Sem te dares conta

De tudo que apronta

Qualquer desafeto

Que não tenha afeto

Por tua pessoa?



E ficaste à toa

À espera de alguém

Que lhe desse a mão?



Fica certo – irmão:

Pousaste de tonto

E mais que bobão,

Porque neste mundo

Nada mais existe

Do que ingratidão.



16.11.2024

(Ilustração: escultura de Matt Verginer)

25 de fev. de 2025

gato esticado

 




dorme o gato esticado na janela

sob o sol que lhe dá

o alento de vida

para o seu dia de preguiça



estica-se toda a minha mente

na janela da página de um livro

que me dá o alento de vida

para o meu dia

de sonhos e incertezas

alimentado

muito bem alimentado

pelas palavras que unem

as sinapses de meu cérebro

e formam o meu conceito de vida




21.1.20525

(Ilustração: Svetlana Petrova: quadro clássico de Dalí, com gatos)

22 de fev. de 2025

flanar

 


talvez um dia

eu queira fugir

 

talvez um dia

eu queira mentir

 

talvez um dia

eu queira matar

 

talvez um dia

eu queira flanar

 

apenas isso – nem fugir nem mentir nem matar – flanar

 

flanar por entre nuvens e folhas e flores

para amortecer todas as minhas dores


 

22.3.2023

(Ilustração: Dorr Bothwell - o malabarista 1949)

20 de fev. de 2025

ateu renitente

 




às vezes penso que gostaria

de ter a fé dos iludidos

de rezar uma ave-maria

que atendesse meus pedidos



ser crente e pensar que deus

nos deu uma alma imortal

gostaria de rever os amigos meus

num céu de prazer total



choro ao pensar nisso no entanto

porque sou ateu renitente

e esse meu louco pranto

não passa de um repente



logo caio em mim mesmo

e se não sofro ainda mais

é que a mente vaga a esmo

em busca de alguns sinais



sinais de que exista vida além

mas só encontro a natureza

a me dizer ela também

que a vida se esvai com presteza



e que somente de matéria

é feita a vida que vivemos

e esta constatação é muito séria

- nada há depois que morremos





31.12.2023

(Ilustração: símbolo do ateísmo; origem desconhecida)

 

16 de fev. de 2025

falsa moeda

 




no fundo do copo

brilha a moeda

e é preciso beber

toda a amarga bebida

para chegar à moeda

e descobrir

que ela é falsa

- a moeda é a vida





10.12.2024

13 de fev. de 2025

faca em brasa

 



como uma faca em brasa cortando um naco de manteiga

escrevo meus versos

guardo para outros poetas a sutileza e a maciez de palavras doces

e quando os leio e penso que devia escrever assim

logo concluo que esse mundo em que vivo não permite

que amacie meus versos em concerto de piano e violino



prefiro os tambores rudes de troncos de baobás

crestados pelo fogo das savanas africanas



no couro da minha pele há palimpsestos de priscas eras

marcas de dentes de máquinas de servidão

somatizo o sonho inalcançável de igualdades desejadas

desdenho o fogo morto das fábricas de chocolate suíço

viajo em navios de piratas para afundar torpedeiros russos

transporto a água benta que não apaga as dores de hiroshima

colho na floresta amazônica o resto de bálsamo

que os caciques dos ianomami juraram

que limparia do mercúrio as águas dos seus rios



trafego em ruas e avenidas de nova iorque e paris

torcendo o escapamento de minha ferrari para dentro dos narizes

dos capitalistas que se ajoelham diante dos altares do consumismo



inutilmente



perpasso cada passo pela guerra de cada canto

pela fome de cada favela

pelo grito de cada feminicídio

pelo arrocho de cada preconceito

pela fé azeda de quem não confia na ciência



desenho em minha mente um garrote vil

para os garimpeiros

para os caçadores

para os madeireiros

para todos aqueles que cagam em nossos rios

para todos aqueles que poluem nossos ares

para todos aqueles que semeiam a dor da fome pelo mundo

para todos aqueles que batem os tambores da guerra



exorcizo cada ser humano que a peste da violência matou

carregando ombro a ombro com os povos do xingu

o tronco mágico para a dança ritual do quarup



a faca em brasa de meus versos corta a manteiga do desespero

de cada ser humano que o poço da desigualdade engole

e não encontra no fundo do prato qualquer possibilidade

de que um dia os meus dedos percorram a borda do copo de vinho

e o cristal cante um canto de esperança para humanidade



6.3.2024

(Ilustração: Hieronymus Bosch)







7 de fev. de 2025

eu poeta solitário

 





eu poeta solitário

não escrevo poemas de protesto

não escrevo poemas de amor

não escrevo poemas confessionais

- escrevo poemas



sei que sou andorinha

que não faz verão nenhum

porque não me ligo a [nem ligo para]

qualquer modernismo

nem qualquer classicismo

ou qualquer ismo



poeto-me a cada instante

o instante de poetar



não brigo com musas

nem as abraço ou bajulo

leve

livre

solto

solto meus pretensos poemas

para mim mesmo

[como desabafo]

e para quem os quiser ler



foco o meu tempo

no tempo de agora

não desprezo o passado

e até o visito constantemente

nem anseio por futuros que não terei



cumpro a sina de escrever

talvez o que nem todos consigam entender

não me importa que por moto próprio ou alheio

fique anônimo e desconhecido permaneça



não têm fortuna os meus versos

não têm pretensões os meus sonhos loucos

assino cada palavra que teclo na tela do computador

com o compromisso de não me vender



sim – sou de esquerda como qualquer anjo torto

minhas asas de ícaro não temem a queda

nem buscam sóis inalcançáveis

- o oceano da literatura é onde mergulho

e onde nado do jeito que posso

apenas o poeta solitário

a escrever nos poemas tortos

a torta filosofia que me dá na telha





11.11.2024

(Ilustração: foto da internet; autoria não identificada)



4 de fev. de 2025

Eternidade

 



Passam as horas,

os dias,

as semanas,

os meses,

os anos.

Passa o tempo – porque é de sua natureza passar

e deixar para trás nossas vidas que não se alongam

[é o que pensamos]



E por que passa o tempo?

Não passa apenas porque é de sua natureza passar:

o tempo passa porque é filho do movimento.

E tudo no universo se movimenta

– desde as partículas do átomo

dentro de tudo quanto existe

até as galáxias em expansão no infinito.



E só porque tudo,

absolutamente tudo,

se movimenta,

o tempo passa

e leva com ele nossa vida



Se o universo um dia

– por sortilégio de alguma força misteriosa –

detivesse as partículas do átomo

e o girar das estrelas

e a expansão das galáxias,

nós – os humanos – seríamos eternos.



Petrificados em nós mesmos,

mas eternos.






30.6.2026

(Ilustração: Salvador Dalí, Young Woman at a Window: 1925)



1 de fev. de 2025

espanto de viver

 




o espanto de viver se encerra

a sete palmos embaixo da terra

– depois não há – só lembrança

na mente de quem cultiva esperança



o pó do tempo cobre nomes e sobrenomes

– ficam palavras que não foram ditas

como verdades que são escritas

não no granito mas nas pedras-pomes



e a vida que era uma grande festa

– hoje lagarta e logo depois borboleta –

voa seu derradeiro voo sobre o mar e pela floresta

antes de espantar-se sob uma pedra preta



[ou ser sobre a tumba o vestígio de um nome – uma só letra]





10.1.2025

(Ilustração: Horace Vernet - Une tombe en terre d'Afrique)



30 de jan. de 2025

dois destinos

 


ao aguar no jardim as suas flores

deságua o jardineiro as suas dores

 

ao despejar um verso apenas na página branca

o poeta o seu ser mais profundo destranca

 

as flores – leva-as o vento um dia

o ser do poeta permanece na poesia

 

assim jardineiro e poeta cruzam um com o outro seu destino

o jardineiro – talvez feliz com o tal vento repentino

já o poeta – à poesia tem para sempre enlaçado o seu destino

 

 

25.11.2024

(Ilustração: Claude Monet - nenúfares)

26 de jan. de 2025

mandacaru

 


verde que te quero forte

estrela em gomos de espinhos

a flor delicada e branca

em contraste

ao verde que resiste

à chuva e ao sol

ao vento e ao mormaço da tarde

e ao sereno da noite



raízes no barranco

cerca viva que não cerca a morte

lenta a tua vida verde

lento o teu despertar

ao sol e à chuva



ao vento não vergas

branca e bela

tua flor cor de lua

brilha mais que a lua cheia

o teu verde verdeja o vento

que passa e sibila pela noite

no ar o perfume flutua



depois de morta pétala a pétala

tua flor já murcha pela manhã



morre a flor – tua vida continua

como sempre teu verde seco

como sempre tua altivez

ao sol e à chuva tu resistes

meu belo mandacaru

resistes tanto que eu quero

e só o que mais espero

ser um dia como tu




20.2.2023

(Ilustração: Adriano Santori - flor de mandacaru)



Ouça esse poema na voz do autor, ISAIAS EDSON SIDNEY, num destes endereços:

- no podcast do Spotfy:


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23 de jan. de 2025

doce de leite

 




numa tarde nem fria nem quente

de pleno outono talvez

[mas pode ser tarde de verão

ou de qualquer outra estação]

nada penso que me apoquente

e quero apenas a levez

de algo que na minha língua se ajeite

como um gato num cesto de linho

como os dedos numa viola de pinho



o sabor mineiro do doce de leite





14.6.2024

(Ilustração: doce de leite - foto de Arnaldo Silva)

20 de jan. de 2025

desalento arretado




a vida é assim: de vez em quando

num susto de fim de tarde

numa lembrança maldita durante a noite

num abrir e fechar de olhos para a merda

vem

um surto

uma fossa

um desespero

o fundo do poço



aquele nó na garganta

aquele choro que não chega

o aperto no peito

um desalento arretado

e a vontade de jogar tudo para o alto



para subir de novo à superfície

para de novo a mente voltar ao normal

para a paranoia ir pra o raio que a parta

nada melhor do que ouvir um som no último volume

um tango argentino

um samba bem rasgado

um rock sem limites

um xaxado arrenegado

ou então

um clipe de johnny hooker




13.10.2024


17 de jan. de 2025

consciência

 


meus ídolos já morreram,

estão velhos ou estão morrendo

e isso bate direto no peito

porque percebo que não tem jeito:

- eu estou encanecendo!

 

caminho pelo quintal lentamente

para não tropeçar no gato que enreda entre minhas pernas:

não posso – a essa altura da vida – levar um tombo

[e todo e qualquer velho sabe por quê]

e é isso o que me aborrece – pensar antes de dar um passo

pensar antes de fazer qualquer besteira

 

muitos amigos da minha idade

estão morrendo

e isso mexe com meus instintos

e mexe com minha sanidade

- eu estou envelhecendo!

 

leio muito – leio de tudo

para manter a mente funcionando

e quando escrevo os meus textos

eu às vezes percebo que algumas palavras

que eu quero usar

demoram mais para chegar à memória

ou tenho que usar artifícios para encontrá-las

 

morrer é contingência da vida

só não é o susto que me dá o pensar na morte

se tive assim alguma sorte

de sobreviver ao tempo e ganhar sobrevida

tenho que cuidar do agora

e sonhar com o tempo que me resta

de tal forma que não vá antes

do que eu quero seja a minha hora

e deixar de alimentar qualquer ideia mais funesta


 

7.4.2024

(Ilustração: Gustave Caillebotte)

12 de jan. de 2025

concerto para flauta e orquestra

 





lavra o lábio à flauta em busca do som

e o vento que vem do âmago do músico

cria o alento do voo mágico

- o sonho se faz som

e o som sonha o suave pranto da lua



- a sala de concerto torna-se plenitude do espanto

ao voo elegante de sons de vento

mirificadamente enevolados em sons de sonhos

sonhos de vagas vidas veladas vagando

em busca da esperança que dança nas tranças bem trançadas

de destinos improváveis



ao som da flauta que os lábios assopram

a sombra da paz perpassa pelos anseios vívidos

de vidas que pulsam e flauteiam à sombra do vento



no silêncio da orquestra – o suspense de futuros

no suspense da plateia – o espanto do arrepio



quando tremem os lábios do flautista

à nota agudíssima que finaliza o concerto

– freme a plateia ao aplauso que desperta

para que o sonho do vento se concretize

– há esperança na noite em cada janela que se apaga



[plagio mais um poeta: o homem sonha a poesia nasce]




2.9.2024

(Ilustração: George Frederic Watts - Hope, 1897)


Ouça esse poema na voz do autor, ISAIAS EDSON SIDNEY, num destes canais:

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11 de jan. de 2025

alteridade

 




quero às vezes contemplar um lago sereno

quero às vezes navegar por um rio caudaloso

quero às vezes perder-me numa floresta tropical

quero às vezes flanar pelas ruas da grande cidade



isso é minha alma peregrina dentro de mim

(eu que não acredito em alma)

a pedir que me aventure por lugares que não conheço

a pedir que saia de minha casca de ovo – a minha casa –

e me liberte de mim mesmo pelos ares do tempo

pelos ares das estrelas ou pelos caminhos das montanhas etéreas

e me perca de vez nos escaninhos de um planeta inabitado

mesmo que esse planeta esteja girando a milhões de anos luz



mas vivo dentro de uma bola de gude e sou apenas

aquele que olha o tempo e sabe que ele só me faz sofrer





30.11.2023

(Ilustração: escultura de Anish Kapoor, Dismemberment)


8 de jan. de 2025

ailurofilia

 





encontrei afinal um amigo

que me fez mais humano

nunca briga comigo

mas não passa pano

nas bobagens que faço



quando tudo parece perdido

aperto-o num gostoso abraço

que é tudo que mais tenho querido

desse silencioso amigo

a quem sou muito grato

porque me fez pensar diferente

e respeitar cada ser vivente



esse amigo de fino trato

em silêncio – grande pensador

que nunca podia supor

e agora reafirmo este fato

– que encontrei muito amor

nos olhos claros de meu gato





3.1.2025

(Ilustração: Theo, foto do autor)





5 de jan. de 2025

águas que sobem

 





quando as águas sobem

levam tudo que os pobres não têm



será que um dia

as águas vão subir

e bater na bunda dos ricos



quando as águas subirem

e baterem na bunda dos ricos

e levarem uma pequena parte

daquilo que os ricos têm

o que será que os ricos vão fazer



quando as águas sobem e levam

tudo aquilo que os pobres têm

o que fazem os pobres

depois de sentar e chorar

todos nós sabemos



depois que as águas baixam

deixando ainda mais pobres os pobres

de quem elas – as águas – levaram tudo

os pobres fazem mutirões

recolhem donativos

reconstroem suas pobres casas

reconstroem seus pobres barracos

e esperam a próxima cheia

[não têm os pobres outra opção]



e os ricos – o que fazem os ricos

quando sentem que as águas

subiram e bateram em suas bundas

levando parte – pequena parte –

de tudo quanto possuíam

[coisa que – convenhamos –

é muito difícil de acontecer]



ah os ricos! – os ricos tiram

seus traseiros gordos

das cadeiras de chefe

das poltronas de veludo

pegam seus iates gordos

navegam pelas águas gordas

com sorrisos de escárnio

bebericam uísque doze anos

dançam

festejam

e pescam dourados engordados

pelos restos que vieram

das cheias de todos os pobres

[não têm os ricos outra opção]



8.11.2024

(Ilustração: Cássia Brizolla - a enchente na Vila Pantanal)



Ouça este poema na voz do autor, Isaias Edson Sidney, nestes endereços:

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