20 de dez de 2008

DO BAR AO SONHO





 (Di Cavalcanti - o boêmio)


(à Fernando Pessoa)








No bar


qualquer tarde de quase-verão.


Sento desconfiado e chamo o rapaz


o escanção


diriam os portugueses


e peço um chope bem gelado


há uma certa


ambivalência


no ar as pessoas parecem estranhas


no largo Santa Cecília


às pessoas que passam


aos fregueses do bar aos mendigos da rua a todos parece haver


fantasmas de tempos imemoriais parados no tempo


a restabelecer no espaço de um bar a ordem


de uma era que já não há mais


uma era


perdida entre o sonho e a lembrança e o bar


e o bar é apenas o porto pobre perdido entre a poeira do tempo e a memória


ao som suave e sensual


da crooner


à voz de uma


orquestra embutida num teclado


ensaiam-se algumas notas de um samba de outrora para a viagem


de agora


é só uma questão de compassos a mais ou a menos tento


observar as pessoas que ali estão


compenetradas em conversas tão inúteis tão inúteis tão


inúteis como


inútil é o próprio bar alçado ao vento da tarde quase-noite noite que


não virá ainda parada na esquina a esperar que o sonho


tome a memória ou a memória abarque o sonho e o senhor calvo da mesa à frente contempla o copo


cheio com os olhos vazados


o paletó de sombra e a gravata de desenho animado da Disney


na cara os dentes amarelos entre o bigode ralo


e o lábio leporino a sorrir para


o ar jovial da donzela cara-de-prostituta sentada à sua frente e o som


da voz da crooner ecoa em ondas de suave entardecer


a embalar a risada de um grupo de negros


que comemoram talvez as férias do escritório a beber muito


a falar muito


a abraçar uns aos outros assim que chega cada novo convidado


a cidade


é o cenário improvável dos sonhos da moça que não é feia


mas também não é bela que entra que sai várias


vezes


e acaba sentada à mesa da calçada olhando furtiva o tempo no pulso


e tenho vontade de lhe dizer que fora eu o esperado


não estaria ela sozinha à mesa de um bar num canto perdido do largo de Santa Cecília calo-me porém não quero a língua a tripudiar


da doce espera solitária de uma jovem desconhecida perdida no tempo


na tarde de quase verão num canto de bar de um tempo


que não é o meu e


um longilíneo rapaz de jeito doce e efeminado


olha-me longamente de longe na certa


avaliando se posso ter ali sentado sozinho as possibilidades de seu desejo


ignoro meu sonho está longe e o som do samba me embala


para dentro de mim e para a periferia da memória e cada gesto que faço


não mais pertence ao tempo em que estou e os vultos


que passam os cheiros que ficam no ar os ruídos de vozes de arrastar de cadeiras


o chope que enregela a língua a suavidade de seda


da voz da sambista a cantar canções de outrora de agora


o motor dos automóveis que param um instante


na esquina


e prosseguem em busca dos sonhos mais loucos de cada passageiro


o olhar dos mendigos do outro lado da calçada


descrentes do mundo a engolir a sopa que o exército da salvação


ou qualquer outro exército metido a resolver com sopa os problemas do mundo


despejaram para eles em garrafas de Coca-Cola cortadas ao meio


eles ali a beber aquela coisa úmida e pegajosa que os manterá


vivos por mais uma noite que impedirá talvez que a barriga ronque


e o ronco provoque a ira da fome mais longa e o brilho da lua


na faca afiada soletre o nome da morte


e acabe de vez com a fome que ronca


o mistério da permanência


o mistério da resistência


o bar é o porto o porto seguro aonde não chegam


o olhar e a fome dos mendigos do outro lado da rua no meio da praça


a aconchegar os trapos para mais uma noite de sono e pesadelos


a cidade aos poucos aquietar-se-á mas o bar


o bar não


o bar


acenderá luzes aumentará os sons ampliará os sonhos


embalará romances expelirá remorsos destruirá amizades


despertará ciúmes destruirá ilusões porque o bar é só


seguro porto


para quem vive lá fora para quem o vê com os olhos de fome


para quem não vive em seu tombadilho regado a cerveja


a cachaça ou a uísque paraguaio em sumos e sucos


e ervas e pós que


fazem sonhar em embalos inúteis de papos ainda mais inúteis


todos palhaços


da vida atores desempregados em palcos podres empregados


mal remunerados de escritórios virtuais contínuos de bancos


vendedores de quinquilharias e corretores de aluguel


e nesse estranho universo de criaturas perdidas


as putas


que gozam sinceras o amor mais fingido


são elas o porto inseguro na noite do bar


do bar


do bar de barganhas entre o sonho e a memória perdida nau


na esquina da praça a resgatar o ventre de loucos arroubos


a arranhar o pêlo de nucas suadas a arrebentar entranhas


do fundo da terra a arrepiar os parcos cabelos de velhos já


bêbedos


na orgia de sons suores na promiscuidade recente


de putas


e padres na mistura insolente de veados


e tarados


todos ali prontos para o motim alucinados pelo comando


tratados a bebida barata de preços extorsivos famintos sedentos


mendigos de vida mendigos de beijos a arrotar


pútridos passados


no esconder vidas que não viverão capados de amor inúteis


cidadãos do mundo cidadãos do tempo magros gordos


poetas e políticos


gente matizada de todas as cores


todos em massa de sonho tornados


todos em busca de si


todos que já levaram porrada muita porrada


transformados transtornados


todos


bobos da corte que à volta se forma da corte à morte da morte


à corte surdos e mudos da louca viagem passageiros constantes


perdidos fedidos


fodidos


trancados em si abertos


aos gases


do inferno que a embriaguez lhes arranca


animais no cio seios


bocetas e colhões em harmonia


profunda em profundo esgar


de morte de espera de mijos


de cada vez mais longos arrotos e peidos e sêmen


e o negro mistério cortado


com faca pairando no ar acima


de tudo


o fôlego


perdido a música encontrada a confiança


alcançada


a confissão arrancada e a


promessa quebrada o beijo a morte


a morte


ao norte


a morte


ao sul


a morte


a leste


a morte


a oeste


a morte


a bombordo


a morte


a estibordo


a morte


ao leme.


E o bar é isso e é mistério


é nau sem rumo


sempre encontrada.


Porque sobre tudo


e sobre todos


sobre


viverá.

23.12.97

23.3.2009

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