28 de out de 2016

gente



(Érika Cardoso - Mama África)







não sou negro

a minha pele é que é negra

não sou branco

a minha pele é que é branca

não sou amarelo

a minha pele é que é amarela

branco negro amarelo

e mil outros tons tem a pele

de gente que nasceu e vive

sob sol escaldante

entre borrascas e brumas nevosas

em climas de trópicos chuvosos

de gente que mora

em cidades de cimento e aço

em palhoças à beira de rios

em casas fincadas sobre estacas

dentro de lagos

em casebres dependurados

em morros derriçados

em choças de pau-a-pique

de pedra ou de argila

cobertas com folhas de palmeiras

à beira de vulcões

à sombra de baobás

ao sol do deserto

às margens de rios e mares

sobre montanhas nevadas

gente alta

gente baixinha

gente de pescoço comprido

gente de olhos irisados

cada um com sua cor

negros

brancos

amarelos

todos têm cabeça tronco e membros

comem folhas

comem carnes

comem frutos e raízes

falam com vozes roucas

falam com vozes finas

e cantam

e dançam

e até guerreiam

se têm cores as suas peles

se têm cores os seus olhos

brancos são seus dentes

brancos são seus ossos

caminham todos sobre os pés

trabalham todos com as mãos

pensam todos com o cérebro

têm todos bocas que riem e falam

bocas que comem e beijam

narizes que cheiram

ouvidos que ouvem

olhos que veem e contemplam

a pele que sente o vento

e a carícia de outra mão

arrepia igual sem distinção de cor

não tem cor o sentimento

não tem cor o pensamento

e bate em cada peito igual coração

que faz correr em todas as veias

o mesmo sangue rubro

carregando a mesma vida multicor

gente branca

gente preta

gente parda

gente amarela

gente de cores e sabores

gente apenas

contada aos bilhões

são átomos invisíveis

num planeta perdido e solitário

a navegar por galáxias infinitas



15.10.2016

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