20 de mai de 2015

ENVELHECER



 (Hugo Morbelli)



Envelhecer é ver amigos, parentes, conhecidos e, até mesmo, ídolos e personagens públicos sendo ceifados um a um pela indesejada e inevitável última companheira. Envelhecer é resistir. Sabendo que a resistência é inútil. Envelhecer é solidão, embora viver seja a única alternativa. Pior, no entanto, que perder pelo caminho as pessoas que amamos ou conhecemos é sentir o tédio da vida. Para a saudade, inventamos subterfúgios. Para o tédio, não há recurso possível. O tédio leva à indesejada, sem apelação. E quando bate o tédio, olhamos para trás e vemos que vida de ontem era tão melhor que a vida de hoje. Vemos que todos os nossos valores foram jogados, solenemente ou não, na lata de lixo da história. Morremos, então. Não literalmente. Mas por dentro. Como se não houvesse mais nada a viver. E essa é a pior das mortes. A morte dos valores. Dos valores daquilo que consideramos nossa geração. E essa morte traz o mais atroz de todos os sofrimentos: o tédio da vida. A incompreensão do que se passa à volta. A descrença no homem. 

Foi pensando nisso que resolvi escrever. Escrever para combater o tédio. Porque escrever é uma forma não apenas de continuar vivo, mas principalmente de racionalizar o irracional. De evitar que as emoções trazidas pelo tédio da vida tornem os anos por virem ainda mais cruéis e amargos. E começo, então, a pensar que envelhecer não é olhar para trás e contar cadáveres. E começo a pensar que envelhecer não é comparar valores e encher de fel os dias de tédio. Começo a pensar que, sim, envelhecer é combater a irracional vontade de dar emoção, através da saudade, aos inexequíveis velhos tempos. Envelhecer é, sim, resistir. Mas resistir às armadilhas da emocionalidade inútil de pensar que tudo era melhor no nosso tempo. Não existe nosso tempo com esse subtexto saudosista de que antes era melhor. O antes só era melhor porque éramos mais jovens e nosso organismo tinha menos problemas para funcionar. Porque, na verdade, mesmo, na verdade mais verdadeira, sem qualquer conotação passadista, o nosso tempo é o tempo em que estamos vivendo. É o hoje. Com todos os seus valores. Por menos que concordemos com eles. Aliás, discordar dos valores de nosso tempo não deve ter por origem o retrovisor do carro da vida, mas a surpresa que pode haver depois da próxima curva. Devemos discordar com o olhar no futuro. O passado não pode mais ser vivido nem modificado. O presente, não o dominamos completamente, pois escorre a cada segundo por entre nossos dedos. Só nos resta o futuro. Esse, sim, pode ser, mesmo que de forma sutil ou canhestra, moldado à nossa vontade. Deixar de pensar nisso, deixar de sonhar com isso significa ser dominado pelo tédio. E morrer a pior das mortes que é viver como cadáver insepulto a carregar nas costas o próprio caixão da vida.




Segunda-feira, Março 15, 2004

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