8 de mai de 2015

SAUDADES



(Minha mãe, eu e meus filhos)


(Para minha tia Ceci 
para todas as outras mães 
que eu tive 
e que também me deixaram...)





Quando minha mãe morreu, quase não chorei.

Não sei bem nem o dia em que minha mãe morreu. Provavelmente, em janeiro, num dia qualquer de janeiro. Ano? Não sei. Não me lembro.

Sim, não chorei quando minha mãe morreu, nem guardei a data de sua morte.

Para que iria chorar no dia da morte de minha mãe? Para que vou guardar o dia de sua morte? Para levar flores a seu túmulo e chorar um pouco? Para quê. Sim, para quê?

Não chorei no dia em que minha mãe morreu, porque sabia que iria ter todos os dias do resto da minha vida para chorar por ela. E faço isso, sim, um pouco, só um pouco, à noite, no silêncio da madrugada, ou no meio do trânsito, quando fecha um farol ou vejo alguém que, por uma dessas armadilhas da visão, pode se parecer com ela. Quando frito na gordura bem quente um torresminho, que ela fazia tão bem.

Por isso, não chorei quando minha mãe morreu. Ou chorei muito pouco.

Porque há lágrimas que nos acompanham pela vida toda, mesmo que nossos olhos estejam secos, mesmo que nosso sentimento pareça arrefecido. Porque há lágrimas que somente nós podemos sentir, ao rolar, enxutas, de nossos olhos: não molham o rosto, mas molham nosso pensamento e nossa memória. Que não nos deixam esquecer jamais.

Não sei o dia em que minha mãe morreu.

Por que devo lembrar uma data, apenas, se me lembro dela todos os dias de minha vida? Se todos os dias minha mãe morre e renasce em meu pensamento? Não preciso de uma data para lembrar que ela me deixou. Apenas preciso saber, todos os dias de minha vida, que ela me deixou. Assim como vou deixar os meus filhos um dia. Assim como todas as pessoas que amamos nos deixam um dia.

Não há fatalismo na morte.

Não há tristeza na morte.

Não há desdouro em morrer. Há apenas, na morte de um ente querido, o vazio que nos acompanhará até o dia em que também seremos o vazio na mente e na vida dos que nos sobreviverem.

Por isso, não se deve chorar, quando morre alguém que amamos. Deve-se, apenas, deixar que o silêncio acompanhe o ato, porque teremos todos os dias do resto de nossas vidas para chorar a lágrima mais cruel: a saudade.


4.10.2006




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