4 de ago. de 2019

entre mim e meu corpo






meu corpo é a casa onde moro

e é a única casa onde eu posso morar

tenho com o meu corpo uma relação

de antiguidade e de usufrutuário

não um contrato escrito

entre inquilino e locatário

mas há o consenso de que preciso

cuidar bem da casa e mantê-la

o melhor possível para que a convivência

seja amigável e eu não seja despejado

confesso no entanto que às vezes

tenho tomado atitudes impensadas

bebido um pouco demais ou ainda

feito besteiras pelas quais sou cobrado

confesso que uma ou outra vez

ultrapassei limites em busca do prazer

ou deixei meu corpo assim meio largado

mas nada de que possa me arrepender

ou que provocasse uma ação de despejo

porque tudo o que mais desejo

é que meu corpo não seja motivo

para desistir de nele viver

cuido dele o máximo que posso

há muito por exemplo deixei de fumar

há muito por exemplo que não tenho

bebido de ir por aí até cair num poço

modero atitudes que infrinjam regras

da boa convivência entre mim e meu corpo

modero atitudes que flagelem carnes e ossos

não tomo demasiados remédios e até faço

um pouco de ginástica para manter a forma

consulto a consciência a cada passo

para não pôr em risco a nossa relação

mas há algo que está acontecendo

entre mim e meu corpo que não entendo

algo no meu corpo que comigo mexeu

algo que reclamo e me deixa sem ação

é que ultimamente meu corpo envelheceu

muito mas muito mais do que eu







21.7.2019

(Ilustração: escultura de Camille Claudel: Auguste Rodin; 

musée Rodin; foto sem indicação de autoria)



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