22 de jun. de 2021

visões fugidias

 




1.

um riacho à luz da tarde

- mergulha o menino

e depois – ao sol – a pele arde



2.

o vento de agosto celebra

a pipa vermelha contra o céu azul

de repente a linha se quebra

ou foi quebrada – partiu a pipa para o sul



3.

o cuspe na ponta do capim

- dentro do buraco a aranha espia

um puxão e a bola de pelo e pernas

no meio do quintal olha para mim



4.

no campinho verde os botões em ordem

para o começo do jogo

a mão ágil aperta o centroavante contra a bolinha

mas o gato é mais esperto – impede o gol



5.

roda o pião na terra batida

rola a bolinha de gude para a birosca

bate a bola de capotão na trave tosca

- a terra é redonda, gira e é divertida



6.

na praça a gurizada grita

tiros espocam das armas de espoleta

corre uma mãe aflita

- não foi nada, entre mocinho e bandido

apenas mais uma treta



7.

roda a roda da saia rodada da menina

pisam os pés descalços a terra batida

cantam todos a queda da heroína

aos três cavaleiros prometida



8.

pela janela iluminada o som do piano

vai pouco a pouco crescendo

na rua o menino para: quer ouvir o soprano

- mas a mãe o chama

e ele – que pena! - tem que sair correndo



9.

lua cheia de sexta-feira da paixão

só se ouvem dentro da noite o canto

dos fiéis acompanhando a procissão

- dentro do menino, solidão e espanto



10.

choveu forte durante a tarde toda

a enxurrada desce ao longo da calçada

- os barquinhos de papel atraem a gurizada

levam seus sonhos para o rio – para o nada





11.

a manga madura no galho mais alto

o prazer do sumo numa só pedrada

- mas o sabiá foi bem mais esperto

do outro lado a fruta está toda bicada



12.

sentado na cadeira as pernas do menino

balançam no ar – espera o cozinhar do feijão

embaixo o lacrau também espera – clandestino

e pica talvez frustrado o focinho do cão





7.4.2021

(Ilustração: Cândido Portinari)





 

 

 

 

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