9 de jul. de 2018

tango







abro a janela e o sol espanta a noite

de dentro de meu quarto

não de dentro de mim



leio até me lacrimejarem os olhos

os poetas loucos e os loucos poetas

não adianta



esfrego vigorosamente o chão

e deixo-o limpo de toda a sujeira

também não adianta



ingiro o que dizem ser a droga da felicidade

e espero um sorriso no rosto

mas ele não vem



à noite que ameaçava eternizar-se dentro de mim

peço então que se vá embora ao som de um tango

ao som de um tango bem marcado e bem tangado

e um tango bem tangado reorganiza enfim

uma a uma as sinapses de meu cérebro

e as asas do anjo torto que em mim habita

não se derretem mais ao calor do sol

não não se derretem mais não se derretem

pelo menos por um tempo de voo

por um tempo de voo que me permita

pousar no galho de uma mangueira em flor





9.6.2018


(Ilustração: Odires Mlazho)





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