26 de dez. de 2019

para meu pai





talvez amanteigasse os meus sentimentos

esse tanto tempo que passou

mágoas pisadas como folhas secas

ao longo dos caminhos e dos dias

o desprezo e a ausência enfim páginas

lidas e esquecidas no fundo da gaveta

talvez até mesmo sua sombra no espelho

onde me olho ao fazer a barba

marcasse um pouco a curva do meu rosto

quem sabe na minha voz um eco da sua

ou em algum gesto que eu repita o seu gesto

ou o seu passo trêfego a marcar os meus

afinal como disse o poeta de tudo fica um pouco

que tenha ficado um pouco do queixo no queixo

do filho pensei e pensei tudo isso um dia quando

há muito você é apenas a asa do pássaro

que cruza assim de repente a minha janela

numa manhã qualquer de qualquer estação

até tentei descobrir a cor dessa asa fluida

quem sabe interromper o voo e fixar

por um breve instante os seus olhos

ou um gesto seu de carinho para poder

acalmar meus sentimentos e derretê-los

um pouco talvez apenas um pouco

da sombra de seu queixo em meu queixo

para quem sabe conseguir superar os longos

os longuíssimos anos de silêncio e indiferença

mas a única palavra que posso dirigir-lhe

é um pedido de desculpas não pela sua distância

não pelo seu silêncio e o seu não olhar por mim

não pelos seus gestos ou sua fisionomia

cuja lembrança há muito esgarçou em mim

não pela sua morte da qual eu pouco soube

apenas um pedido de desculpas envergonhado

por não poder perdoar-lhe jamais – meu pai



21.12.2019




(Ilustração: Hannah Höch)




Nenhum comentário:

Postar um comentário