9 de ago de 2016

UTOPIAS



(Luke Fildes - Houseless and Hungry - 1869)



Na madrugada fria,

fui encontrar minha utopia

dormindo sob marquises

no meio de muitos trapos.

Faminta, nem lembrava os dias felizes,

quando batíamos longo papos

sobre a miséria humana

e sonhávamos ambos com dias melhores

muito além da vida insana

de muito trabalho e cada vez mais pobres

que levavam – e ainda levam – proletários do mundo inteiro

sob o jugo do capital.

Sentei-me ao lado de minha utopia

- queria oferecer-lhe algum dinheiro –

embora desde muito eu já sabia

que isso lhe faria mal.

Nem falar ela podia, minha pobre utopia,

ali entre tantos mendigos e sem teto,

entre o povo que ela sempre defendia,

enrolada nos trapos como um feto

mal nascido e mal criado.

Tomei-a nos meus braços,

aqueci-a com meus abraços,

dizendo-lhe o quanto havia procurado

por sua trilha, por seus traços

pelos caminhos da minha vida.

Quase morta, na miséria mais profunda,

sua voz veio a mim num fio lamentoso,

naquele momento tenebroso,

naquela calçada mais imunda.

E disse-me o que eu nunca pensara

Que um dia pudesse admitir:

que fosse eu uma pessoa rara,

não deixando nunca de sorrir,

não deixando nunca de lutar,

que da minha luta e do meu sorriso

dependia que ela pudesse se salvar.

Que tivesse, enfim, muito juízo

para continuar tendo esperança

de um dia tudo melhorar.

Se eu sonhasse, se eu não desistisse,

foi o que ela, a minha utopia, me disse,

ela aos poucos sairia desse coma

e de novo brilharia, como brilham as utopias,

para todos os povos em qualquer idioma,

colocando nos olhos de cada ser humano

a esperança de uma vida menos vagabunda.

Portanto, minhas companheiras e meus camaradas,

o que ficou daquele encontro na calçada,

naquela fria e distante madrugada,

é o pedido, quase uma exigência,

que não tomemos ciência

de quão distante estejam nossos desejos, nossas esperanças,

não importa se são longos os tempos de tristeza,

que os enfrentemos com braveza,

que nos aqueçamos nas noites frias

com novas canções, com novas danças,

e, unindo nossas mãos como as crianças,

não abandonemos nunca as nossas utopias.


5.8.2016












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