18 de abr de 2018

abismo








meu coração está um lusco-fusco de tarde após a tempestade

não há mais considerações a serem feitas depois da tormenta

os ventos alísios sopram apenas o suficiente para mantê-lo

nunca pensei em chegar a um estado de esperança expectante

assim como os arroios que formam lagos após cachoeiras

sei que todos os seres humanos têm paixões turbulentas

não conheço quem almejara mais do que eu a paz dos idiotas

talvez agora seja o momento de enquadrar meus sentimentos

à mediocridade de um mundo que prima pela estupidez

afogado em guerras e assassinatos sem nenhum sentido

mergulho então em mim mesmo e não encontro nada

somente a fímbria escura de um horizonte tenebroso

a prenunciar o fim de tudo e o começo do absurdo

homens e mulheres abraçados a si mesmos em fogos

cometas astuciosos a cruzar o corno da lua nova

esperam-se dias de sol que nunca mais virão

e os corações angustiados desafiam leis inutilmente

porque a esperança que o fim da tarde de tempestade

trouxera enfim se esgarçou no abismo mais profundo

que estava escondido no fundo da alma de todos os seres



28.3.2018




(Ilustração: Paula Rego)



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