25 de out de 2010

POEMAS ESPARSOS - 24


(Guennadi Ulibin)



Fim do sonho


Em transe, como ao ópio acorrentado,
revisito o mundo num verso de Pessoa.
Acompanha-me em si mesmo mergulhado o poeta em multifantasmas enigmáticos
a sorrirem o sorriso triste de ironia lusa.
Talvez a ver do mundo as naus que nunca
do porto à espera jamais zarparam,
desfeitas em nós de nadas e espumas.
Loucos ambos, loucos todos, a mim, ao poeta
e seus eus (caminhamos num mundo já previsto
por deuses falsos e falsas crenças
a vir-a-ser do caos o eterno instante)
parece tornar o futuro que já passou,
nos piscas-piscas de velozes máquinas,
na planta murcha à entrada do arranha-céu
de um céu virtual - tristes todos - eu e
meus poetas - a rezar o credo dos ateus -
como deuses, como deuses vãos em madeiros
rotos, como em raios de tormentas
à luz do semi-inverno, fogos fátuos
de insanidade à luz do néon, do néon de mil,
de milhões de luminosos que anunciam
- para breve -
o
fim
do
sonho.


17.5.94

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