15 de dez. de 2016

COURO DE GATO



(Aldemir Martins)


Muitos anos atrás, eu e meus amigos, Homero, Adelino e Anésio, morávamos numa velha (e ainda hoje existente) pensão no Bixiga, na velha São Paulo ainda da garoa. O nosso quarto abria uma porta para uma sacada, no segundo andar, voltada para a rua Condessa de São Joaquim. 

Uma noite, alta madrugada, acordamos com o barulho na rua e o nosso amigo Homero, que gostava de compor e cantar, debruçado na sacada morrendo de rir e cantando: “Aquela gata que passava por aqui / Aquela gata não é mais gata / Hoje é tamborim”. Algumas moças – digamos, de vida livre – passavam pela rua fazendo um grande estardalhaço, ao chutar latas de lixo e falar e gritar.

Corta. São Paulo atual. Meu neto, Lucas, ganhou uma gatinha. Não sou muito amigo de gatos (até bem mais do que de cachorros que, positivamente, não são meus amigos e eu nunca sou amigo deles). Bem, o fato é que a gatinha é graciosa. Ainda novinha. Para brincar com ele, que é muito sapeca, do alto de seus quase cinco anos, toda vez que ia à casa dele, cantava a musiquinha do meu amigo Homero, que nunca me saiu da memória: “Aquela gata que passava por aqui / Aquela gata não é mais gata / Hoje é tamborim”. E dávamos ambos muitas risadas. Só não esperava que ele aprendesse a música e passasse a cantá-la o dia todo para a inocente da gatinha. Isso atiçou minha curiosidade.

Existe mesmo essa música ou foi invenção do meu amigo Homero, tão cheio de graça e tão inventivo? Fui atrás e achei a música “Couro de gato”, de Grande Otelo, Rubens Silva e Popó. Havia apenas uma adaptação de sexo: o gato passara a gata, na versão que eu conhecia através do Homero. E foi essa a versão que mandei ao Lucas, e ele se divertiu muito com música. 

Lembremo-nos que, à época, não havia o conceito do politicamente correto, que é bastante recente e, às vezes, um tanto irritante e limitador. Necessário, no entanto, para que não se cometam barbaridades como já se cometeram, tanto na literatura (leia-se Monteiro Lobato), quanto na música (lembram da marchinha “nega do cabelo duro”?) e em tantas outras manifestações. De qualquer modo, pertencem ao passado e, se dermos o devido desconto, podemos até nos divertir com isso. Como o Lucas se divertiu, na sua inocência dos cinco anos, com a música da gata, ou melhor, do gato:



Aquele gato,
Que não me deixava dormir,
Aquele gato,
Agora me faz sorrir,


Às vezes saía bem da minha pedrada,
Pulava e dava risada,
Fugia, zombando de mim,
Aquele gato, não é mais gato,
Hoje é tamborim...

(refrão)


Paciência,
A vida é mesmo assim,
Fala, couro de gato,
Fala, meu tamborim...








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