19 de jul de 2010

POEMAS DE LOUCO AMAR - 10


Não tens a intangibilidade das musas românticas













Não tens a intangibilidade das musas românticas
nem a leveza etérea de nefelibatas,
mas lanças-me pedras como certeiras flechas
do brilho estanque dos olhos teus.
Em ondas de amor sob pontes partidas,
rios de águas claras afogam meus desejos.
Mas és a ilha onde ancoram
todas as saudades que provêm de ti...
Mesmo o meu amor, proibido por tênues laços,
sabe a mel dos lábios teus.
Sofres por amar-me, por amar-te eu sofro.
Vivemos vidas distintas como margens
do mesmo infinito rio chamado amor.
Dos sentimentos etéreos à realidade,
emocionam-me às lágrimas os teus encantos.
Dá sentido à vida o teu rosto pleno,
fonte oblíqua de sentimentos loucos.
Se desse desejo estranho brotam dores,
nosso amor marginal sobrevive a crises.
Ao vôo dos meus pensamentos acompanhas-me
em líquida e fluida angústia de ausência rara.
Fazes-me asa em mar de escolhos,
fazes-me lago em ondas de vento.
Sou teu porto impossível em meio à procela,
és meu paraíso em meio à loucura.
Se te perdes, padeço. Se me feres, sorrio.
Teces a teia em que te prendo,
soltas em mim a imagem perdida.
Se recupero vidas do além-passado,
vens do futuro a remoer presentes
e levas contigo a semente do porvir.
Mais além das nuvens em tardes de chuva
brilham prazeres em sons sinfônicos
na celebração do encontro tantas vezes adiado.
Musa tangível e impura, recordas em mim
vênus e ninfas de eras passadas.
És a um tempo a dor e a cura
de todos os meus esgares em leito de rosas.
Tu, só tu, imagem louca em sonhos fundida,
trarás em pranto de dor a lágrima do prazer
que aos teus pés implode o meu peito ferido.
Folgas em mim teus simples caprichos
e matas de esperança o anseio mais profundo.
Foges e vens a um tempo terrível e bela,
a passar sobre meu peito a chama da morte,
em vidas mil no gozo extremo multiplicada.
Se te lamento em versos, sorris em pranto,
se de tua alegria me alimentas, pareces-me triste
e tristes tornam-se meus alegres momentos.
Ressoam em meu peito sentimentos vários
em ondas insanas que me traduzes louca
em desejos incertos de incertos albores.
Amas-me, não o negas! Dizem-mo teus olhos!
Odeias-me, no entanto, por sentires-te amada,
sempre que em ti pousam meus mendigos olhos.
És tu a impensada estrela
a ofuscar em brilho a luz do sol longínquo.
Mesmo a esfumar-se em brasa meu peito em dor,
sopras o vento a alimentar as chamas
e afagas em bálsamo as feridas em sangue.
Vampirizas-me a alma a oferecer-me eternidades
e matas-me a cada gesto de inglória escusa.
És, ó tangível musa, em sonhos alcançável
e eu, fauno ardente de ocasos feito,
resumo em ti vidas amargas de feliz ventura.



(s/d)


(Ilustração: Picasso)


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