28 de out de 2015

OUTONAIS (POEMAS... BREVES POEMAS DE OUTONO)


 

OUTONAIS






(Lena Karpinsky - chanson d'automne) 



(POEMAS... BREVES POEMAS DE OUTONO)



  
isaias edson sidney





1.    neste outono






neste outono
não quero tristezas
não quero abandono
não quero asperezas
das pedras dos caminhos

neste outono
o meu sonho preferido
será perceber nos ninhos
não o pássaro ferido
mas a rima de bem-te-vis

neste outono
meu amor será mais doce
de tudo quanto me fiz
de tudo quanto você me trouxe




2. meu olhar é leve





meu olhar é leve
mais que o voo breve
do pássaro azul
pelo céu de jade
de norte a sul
dessa cidade




3. tive um dia muita saudade





tive um dia muita saudade
de uma paixão que já passou
foi numa triste e bela tarde
de um outono que me restou



4. fim de tarde





fim de tarde
é apenas um fim de tarde
não importa se verão
inverno ou primavera
fim de tarde de outono
é apenas um fim de tarde

ou não?



5. amigo meu de toda hora





amigo meu de toda hora
faça-me nesta tarde um bom favor
leve já com você embora
de alguma forma de algum jeito
esse estúpido e inoportuno amor
que cismou de arrebentar meu peito



6. se sonho





se sonho
o meu sonho
em sonho se transforma
se penso
o meu pensamento
em lembranças se transtorna

(culpa do outono)



7. modorra de tarde de outono






modorra de tarde de outono
na rede o corpo a balançar
modorra de tarde de outono
na mente um sonho a lamentar



8. tão bom tão bom tão bom





tão bom tão bom tão bom
nada ter para fazer ao passar das horas
numa tarde que parece outono




9. queria tanto tanto





queria tanto tanto
que estivesses a meu lado
secando o meu pranto
cantando um doce fado
nesta tarde de outono

(que sono!)




10. sabes a mel





sabes a mel
sabes a fel
e sais
que louca
a tua boca
tem flores
outonais



11. não rimas





não rimas
se não limas
os versos
tão perversos
que escreves para mim

não estranhes
meu estro rude
fiz o que pude
para achar o termo exato

se quebras o que eu quebro
se destróis o que eu te peço
se amplias o que eu te gozo
não esperes rimas ricas
não esperes loucos versos

somos flores
somos árvores
somos prédios
somos prados
e somos sempre no outono
a tarde morna
do fim do tempo



12. era tão bom o teu outono





era tão bom o teu outono
era tão calmo o teu gozo
era tão fresca a tua boca
era tão negro o meu desejo

(fugaz!)



13. chegaste enfim como o outono





chegaste enfim como o outono
vieste calma após as chuvas
não sei se quero o que me trazes
não sei se trazes o que eu morro

(apiedas-te de mim, talvez?).



14. voas o último instante





voas o último instante
do vento que vem
voas o alento final
do desejo que me trai

(ai!)



15. compartilho contigo o meu anseio





compartilho contigo o meu anseio
entrego a ti o meu mais antigo enleio
encontro enfim tudo em que creio
ao encostar a cabeça em teu seio

(adeus!)




16. teus caminhos deviam ser





teus caminhos deviam ser
os meus caminhos
também

os teus anelos deviam ter
os meus anelos
também
os teus suspiros deviam vir
com meus suspiros
também

tu que não vieste
não precisas desculpar
o outono é frio
e os deuses
estão todos a dormir

(para sempre!)




17. tudo bem contigo?





tudo bem contigo?

tudo, tudo bem comigo...

por favor não te zangues
se te penso correndo nua
deusa em campo de trigo

(ou foi na lua?)



18. ah! o outono... não importa





ah! o outono... não importa
se cedo ou tarde:
tudo quanto penso
tem cheiro e é doce e arde...



19. lá fora o azul





lá fora o azul
lá fora a luz
lá fora o pó
e aqui, numa sala taful
(só para esnobar a rima)
sinto-me tão só...

(teu vulto na sombra não basta)



20. folha seca na terra seca





folha seca na terra seca
cai o galho no lago seco
cai saci numa peneira
greta o brejo e o sapo ronca
fende o tronco da paineira
seca a boca de beijos secos
não seca os olhos a saudade



21. quando outono





quando outono
é bom o espreguiçar depois da lida
numa rede
numa rede de saudade entretecida



22. fosses calma como o outono





fosses calma como o outono
fosses lago em vez de rio
fosses tronco em vez de folha
fosses brisa em vez de vento

fosses vida em vez de sombra
fosses tarde em vez de noite
fosses mel em vez de pólen

fosses tu mesma em cada gesto
fosses tu mesma em cada beijo

e seria eu a tua sempre primavera



(Ilustrações: Andrzej Malinowski)


Quinta-feira, 8 de junho de 2000



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