22 de out. de 2015

METAPOEMA



(Andre Muller)



Goza o poeta ao poema
somente enquanto abstrato:
massa amorfa que busca
a prisão das frases ocas.

Não lhe pertence o concreto
verso frouxo na página branca:
ao poeta apenas resta
o fugaz consolo da poesia.


BH.23.11.77

20 de out. de 2015

NOSTÁLGICA


(Cezanne - Maisons au bord d'une route;1881)



Vaga o pensamento vário
Por fundas noites de luar
Buscando ruas tortas
Praças verdes e escuras
Cidadezinha perdida em meio
Às montanhas azuis

Um violão que geme a seresta
A voz rouca e envolvente
Sobe a música pelas heras
Num tempo parado no ar

Muros portões e cães
Uma rosa deixada ao balcão
Uma sombra à veneziana

Como são tristes os muros
Que separam nossas amadas
Numa idade branca
De paixões absolutas.



BH.4.3.79

19 de out. de 2015

NAS FOLHAS DAS ÁRVORES



(Jean-Pierre Ceytaire)




Nas folhas das árvores
ressoa o vento;
a música
o pirilampo
e a luz
se confundem
em sons, cores, arrepios
numa lágrima de sal
que explode no cheiro
de corpos suados
em beijos e abraços
gozos
suspiros
dentro da noite
os ventres dos amantes
se fundem num só
em cópulas
de ventos
de luzes
de cores
de suores
até
o cogumelo final.



S.P. 15.3.86

18 de out. de 2015

A HORA MISTERIOSA




(Dirk Dzimirsky)






Quando chegar a hora misteriosa,


tu não terás a palavra certa:


não cumpriste as regras


e deixaste a vida passar.






Teus dedos não conseguirão agarrar


o sopro do vento final.





Teus olhos já não mais terão a luz


para ver o brilho da estrela.






Teu cérebro murcho não mais sonhará


os sonhos de paz de tua juventude.






Teu sangue entupirá as veias


transformado no negro pó das tumbas


e a hora misteriosa te encontrará nu


como quando nasceste.






Tuas palavras morrerão no eco das pedras,


e a noite final povoará de monstros


cada pensamento que ousares ter.






Mas não te preocupes: tu não mais sofrerás.













S.P. 15.3.86

16 de out. de 2015

QUERO EU À MANEIRA PROVENÇAL




 (AlfredKubin)





Quero eu à maneira provençal


fazer agora um cantar de dor,


numa viagem sem final,


de angústia e estupor,


à alma do bicho da terra


tão pequena.


Cantar de dentro de mim a guerra,


a derrota e a pena


de todos os condenados.


Repetir os gestos e as danças


através dos séculos repassados


para eclipsar as esperanças.


Recompor os velhos temas,


às vezes tão banais,


para sentir todos os dilemas


dos círculos infernais.







BH.S/d

15 de out. de 2015

COMO BEETHOVEN SURDO COMPONDO A NONA SINFONIA



(Erika Cardoso - o louco)



Como Beethoven surdo compondo a Nona Sinfonia
regi meus versos loucos que nunca serão lidos
ávido de justiça e paz, sem nunca ter alegria,
cantando meus verdes anos perdidos.

Não importam as nuvens negras ofuscando o luar:
a verdade de minha vida é como a noite
tentando emudecer quem não se pode calar
tentando encobrir a revolta com o açoite.

Ladrem os cães da vã justiça nefasta!
Roubem ao amor quem para o amor nasceu!
O infortúnio de alguns dias negros não afasta
a luta de um pai por um filho seu!



BH 29.10.75



14 de out. de 2015

COMPONHO POEMAS COMO QUEM SANGRA



(Foto de Fátima Alves)





Componho poemas como quem sangra


o sangue telúrico de um povo sofrido


abrindo feridas novas sobre a cicatriz


das velhas minas de um tempo perdido.






Os deuses não me deram o dom de ser feliz


mas deixaram em mim a possibilidade


de extravasar a dor e a tristeza


através de palavras mortas pela idade.






Não há lugar em meus versos para a beleza


e o meu canto é duro como a pedra


rude como o matagal da montanha


onde a flor suave da campina não medra.






Componho poemas como quem estranha


a própria sonoridade das palavras


não sabendo mineirar do pó o ouro


que escorre enganoso das lavras.






Minha dor, no entanto, não esconde o tesouro


de sentimentos profundos que explodem


em ódio, angústia e desespero


a ofuscar o brilho de minhas próprias palavras.




BH 29.10.75

13 de out. de 2015

HOMEM DE CORAÇÃO MECÂNICO



(Giger)





No centro da máquina, o Homem.


No centro do homem, a Máquina.


Metamorfoseia-se em Criador a Criação.


O Senhor em Escravo se transforma.


Mecanizam-se o amor e a dor.


Humanizam-se os diodos e fusíveis.


Homem - Ser - Objeto - Máquina,


Equação absurda agora em


Máquina - Ser - Homem - Objeto.


Um novo ser reajustável


Ao mistério computadorizado


Da Trindade mágica da Energia.




BH 16.8.78

12 de out. de 2015

LUTA



(Andre Muller)



eis num instante o lampejo
do mote à glosa pula o pensamento
poético
flui o verso
salta a palavra
tropeça o verbo
acumulam-se conceitos
vazios
à interrupção do mundo exterior.




BH 9.9.77

11 de out. de 2015

PE(R)DIDO



(Carybé)






para ser poeta hoje em dia


basta nada ter a dizer


por isso quero eu também


requerer para mim um título


como príncipe dos poetas mudos


e fazer versos vazios


e formas barrocas


para dizer apenas que nada


nada


nada tenho para dizer.




BH 18.7.76

10 de out. de 2015

CHAVE



(Salvador Dalí)





estrutura o verso ao pensamento

tentando comunicar o íntimo



fica entretanto na boca

o gosto de tinta das palavras imaterializadas



dorme o poeta sobre os louros

por aquilo que não disse e todos pensaram



a chave jaz no cofre enferrujada

e os homens contemplam e aplaudem

a mentira de um tesouro inexistente

joias ópticas de um ourives de ilusões




prestidigitador o poeta luta

para escrever um verso vago

que traduza a loucura do homem.








BH 18.7.76

9 de out. de 2015

PONTE



(Jacek Yerka)




palavra puxa palavra
a ponte projeta a margem de
   para
         lá
fundindo no meio das águas
um
    só
       pensamento
                         CONCRETO
palavra puxa pensamento
a ponte traz a esperança
e a vida
           flui
                por
                     baixo
                     palavras
               sons
           versos
                               VIDA
tudoliga s e p a r a passa e a ponte permanece
tentando ficar no    
                               ESPAÇO
ficando apenas no tempo uma
                                            não-ponte
de  
   palavras
               vãs.


BH.18.7.76

6 de out. de 2015

O RIO (quase haikais)




(Monet)



horas fico a fio
olhando as águas que passam
as águas do rio




(Monet)




sonho com as águas
do rio o verde sonho do mar,
mas sonho sozinho




(Monet)




o peixe que pula
nunca encontra
as mesmas águas




 (Monet)




lento passa o rio,
lentas assomam das águas
as minhas mágoas




(Monet)




de cima da ponte
o que se vê: horizonte
que lento escorre




(Monet)




no mar
o rio deságua
a minha mágoa




(Monet)




um peixe pula,
um pássaro passa:
tudo é rio, tudo é água




(Monet)




a vida que escorre
nas águas do rio:
sonho apenas, nada mais




 (Renoir)



leito leve e líquido
desliza lívido o luar
leva lento e calmo
a alma livre a lembrar



  
 (Renoir)




um barco é só
um gafanhoto marrom
perdido no rio




 (Renoir)




o barco passa
leva a lembrança
 deixa a saudade




30 de set. de 2015

insatisfação



(A. não identificado)







chupo tua boceta e penso na manga madura


enchendo de sumos a minha boca






chupo a manga madura e penso em tua boceta


me invandindo o olfato, o tato, o paladar






ambas no mesmo ato de chupar - impossível


então me conformo em pensar que tua boceta


é a manga madura escorrendo sumo amarelo


e a manga madura que chupo é tua boceta 


em gozos oferecida ao prazer de meus sentidos






12.6.2015


27 de set. de 2015

vulnerabilidades




(Franco Clun)




vulnerável o barquinho de papel
lançado pelo menino à correnteza do meio fio

vulnerável o pássaro no alto da árvore
à chuva de granizo em dia de tempestade

vulnerável o andar da criança
inventando caminhos e futuros

vulnerável ao vento e à chuva a fortuna
inutilmente amealhada ao longo da vida

vulnerável o véu da noiva e a aliança
de vidro do noivo diante de deuses e altares

vulnerável a vida jogada aos mares
em barcos de plástico e vento

vulnerável será um dia meu corpo inerte
lançado aos cuidados de ilustres desconhecidos

porque é assim a vida e assim correm os anos
que temos sobre a bola em que viajamos
redemoinhando no tempo e no espaço
nada de nada do nada que pensamos ser




21.9.2015



22 de set. de 2015

Na geografia do teu corpo




(Jacques Majorelle - 1886-1962 - reclining-nude)







Deitada nua,


de frente para mim,


entregas-me tua geografia:


ao norte, os lábios exploro


com meus lábios; a língua,


no recôncavo da boca, com minha


língua; o oco enfim da própria


boca com minha vara, que chupas


lânguida, deliciada.


Desço, depois, rumo ao sul,


não sem antes uma parada,


uma parada exploratória


por duas pequenas colinas:


a oeste, o teu seio direito,


a leste, o teu seio esquerdo;


colinas de prazer e arrepios que


percorro com dedos e mãos e lábios


para sugar a seiva do topo róseo,


a levar-te a espasmos moderados de prazer


e languidez.


Desço um pouco mais, pela ampla


planície


de tua barriga e paro - só um pouco -


na pequena cratera


de teu umbigo, nem funda nem rasa, apenas


um oásis simples de ternura e descanso, para


logo em seguida prosseguir na trilha


rumo ao paraíso do sul,


onde encontro,


primeiro, uma floresta rala de negros pelos, de


macia alcatifa, onde pouso - por instantes -


o olfato, os lábios, a língua, para preparar o ansiado


encontro


com a pérola e a a concha


que tens guardadas para mim nesse


imenso


e tão pequeno


paraíso.


Tua pérola se entumesce à saliva de


minha língua, ao toque


de meus lábios;


sugo-a eu com devoção como se quisesse exaurir


a vida que em ti habita por meio desse


pequeno botão


vibrante,


tu te contorces um pouco e pouco a pouco teu


desejo


vem em ondas de mar aberto, até que, num movimento que abrange


toda a caverna, a língua percorre tua fenda


de norte a sul,


de sul a norte,


o mar que se esconde em tua caverna ruge profundo


quando, enfim, a língua toda, em prazer


tornada, adentra o paraíso fremente e um tsunami


de águas termais - marítimas águas - inundam minha boca,


minha vida,


meu amor


por ti.


Satisfeito - não saciado -,


depois de breve descanso,


enquanto ainda quente do primeiro orgasmo, retomo


a viagem, não sem antes virar-te de bruços - agora, bem mais


ao sul,


acaricio os teus pés,


os dedos separo, a cada um dou o trato da minha língua


chupo-os delicadamente,


enquanto soltas gritinhos de


prazer -


depois que assim de joelhos dei aos teus pés todo o meu afeto,


as tuas longas pernas flexionadas


- deixo-as cair para que, subindo curvas e vales,


a língua atinja tuas coxas - então


vislumbre e percorra


a montanha suprema de suprema beleza,


as grandes elevações arredondadas, a lua plena, ali, inteiramente


minha,


à disposição total dos meus supremos anseios,


a porção cobiçada por tantos,


alcançada por mim, por minha boca,


mordisco a leste, pulo para o oeste,


antecipo e antegozo o momento extremo,


enquanto voltas a gemer um pouco


imaginas, talvez, ou desejas mais que tudo -


esperas, anseias pelo que pode fazer a paixão


diante da lua entre lençóis ao alcance de minha boca,


de minha língua,


numa lua com um vale profundo,


é a esse vale aberto


agora


que todo meu tesão se dirige


para o seu fundo


que a minha


língua se


estende,


serpenteia,


escorrega,


desce,


vai,


a vagar,


devagar,


devagar...


Joinville, 15.4.2015


17 de set. de 2015

TREZE POEMAS DE INVERNO E UMA CANÇÃO DE PRIMAVERA



(Katy_Bailey - masked sheets)



     Primeiro poema de inverno:

Convite


vem, amor, pra debaixo do calor
de nossas cobertas; fica,
fica e acaricia minha pica
para que,  neste inverno
o teu gozo seja eterno


 Segundo poema de inverno:

Aquecimento

não amor eu quero contigo
fazer:
quero do teu umbigo
ao teu sexo
me
 escorrer
e
lábio com lábio
não na boca, imagina!
mas meu lábio
- mais sábio -
lá, em tua vagina!


        Terceiro poema de inverno:

Entrega

chupa, chupa por entre
as pregas de minha glande,
o calor que fica
em minha pica
 - e que se expande -
quando sai de teu ventre

enquanto minha língua
bem viva
usa muita saliva
para enrolar teu grelo
com teu próprio pelo




      Quarto poema de inverno


Navegação


faz de teu corpo
o cais
onde quero
sempre mais
o lençol inunda
com todo o gozo
que escorre de tua bunda




Quinto poema de inverno:

Farol

em cada espasmo
do teu corpo,
dá-me o teu orgasmo
não, não refreio
meu anseio
em teu seio
(fruto de ouro):
quero todo o veio
de teu tesouro



  Sexto poema de inverno:


Ilha

colho com a língua
     o gozo que vem lento
    e forte
  do fundo de teu corte


goza mais, amor, goza,
enquanto chupo o teu cravo:
se a língua tece a prosa,
faço versos como teu escravo


  Sétimo poema de inverno:

Praia

quero-te onda
para afogar-me em teu ventre
quero-te rio
para afundar-me em teu gozo
quero-te lago
para afugentar os meus temores


   Oitavo poema de inverno:

Navio

não sentes o frio que vem de fora porque aqui
bem quente há um pau que te devora


também não me arrepia o vento que bate à porta
tenho aqui dento o que me basta: o agasalho
da tua boca para aquecer o meu caralho




Nono poema de inverno:


Náufragos


peço-te gozo e me dás
teus licores;
peço-te tesão e me dás
teus humores




1Décimo poema de inverno:

Balsa

no teu grelo esfregas
minha vara
e te entregas
à sanha da minha tara


Undécimo poema de inverno:

Horizonte


lambes de cima até em baixo
minha caceta,
enquanto me afogo lá em baixo
nos sucos de tua boceta



 Duodécimo poema de inverno:

Litoral


valquíra do orgasmo e da beleza,
cavalgas e não foges à luta:
dá-me, a mim, a certeza
de que cumpres no meu pau
tua doce vocação de puta


Décimo terceiro poema de inverno:

Cais

exausto, desfalecida
te deixo:
a vara antes enlouquecida
é freixo
no meio do rio;
assim,
minha sanha e teu gozo
ao fim,
jogaram no fogo
este inverno tão frio

A canção de primavera:


Flores

tu sabes o que eu era,
eu sei o que tu desejas:
espera um pouco mais, espera,
prova do bolo todas as cerejas,
amansa aqui dentro a fera
embora cansada já estejas;
eu sei que te desespera
este inverno, mas que sejas
ainda um vez a quimera
de ilusões benfazejas,
antes que chegue a primavera