7 de abr de 2016

A GRIMAÇA






Conversando há poucos dias com meu amigo Adelino, por telefone, recordávamos os tempos do Colégio N. S. Aparecida, em Lavras, onde estudamos e fizemos juntos o antigo ginasial e o colegial. Lembrávamos dos professores, especialmente do saudoso Pe. Luís Things. Não há aluno do Aparecida que tenha estudado com ele que não tenha alguma história ou não imite o seu falar característico, com forte sotaque alemão. Foi realmente uma figura marcante de minha formação, com suas aulas de história, principalmente, dentro de todas as limitações da época.

Lembramos, então, eu e o Adelino, um fato curioso que ocorreu comigo. Estava na quarta série ginasial. Nunca fui um aluno exemplar, fazia algumas traquinagens típicas de moleque de 14 anos, não sendo, no entanto, nenhum mau elemento. Era só um garoto, como se dizia na época, “um tanto desesperado”, meio travesso.

Lembro-me de que estava quieto, prestando atenção não exatamente à aula, mas aos meus sonhos, ao meu mundo interior, numa manhã qualquer de um dia bonito lá fora. Padre Luís escrevia no quadro negro (não se usava a palavra lousa) e a classe estava tranquila. De repente, olhando para meus braços, descubro bem no meio do bíceps uma pequena espinha. Ergo o antebraço e levo a outra mão para espremê-la, num gesto meio distraído, tão distraído quanto estava em lugares longínquos o meu pensamento. No mesmo instante, Padre Luís se volta para a classe e me pega no meio daquele gesto. Num impulso, grita comigo, naquele seu linguajar típico:

- Isaias, forra!!! – seus erres eram sempre dobrados, muito dobrados.

Assustei-me. Caí de meu mundo nefelibata para a dura carteira escolar. E resolvi, num átimo, que devia resistir àquela injusta expulsão. Enfrentei-o:

- Por quê? O que foi que eu fiz?

- Vous estava fazendo grimaça!!! – Padre Luís sempre usava esse tratamento para conosco, esse “vous” que soava “vus”.

Tive um instante de estupefação. Não tinha a menor ideia do que estava falando o professor.  Devolvi-lhe:

- Fazendo o quê?

Para delírio da classe, ele repetiu:

- Grimaça! Vous estava fazendo grimaça! Forra!!

- Não estava fazendo nada! E não vou sair!

Criado o impasse. Não ia sair. Já havia sido expulso de classe uma ou outra vez, mas naquele momento não estava fazendo nada e era injusta a minha expulsão. Sempre reagi mal às injustiças, em quaisquer situações. Não fazia parte de meu repertório deixar-me punir por algo que eu nem sabia o que era, a tal grimaça. Fez-se um silêncio tenso na classe. E para regozijo de todos, o Padre Luís contemporizou:

- Vous fica!!  - E continuou a aula.

Amuado, assustado, sem saber direito o que fizera, como ousara rebelar contra a autoridade do professor, passei a prestar a atenção à aula, ou mais precisamente, às suas reações. Percebi ou intuí que ele não se contentara com a solução. E que viria algum tipo de punição, posteriormente.

No dia seguinte ou no outro, não me lembro bem, a primeira aula da manhã seria com o Padre Luís. Pensei: ele não vai me deixar entrar. Acontece que os professores, na primeira aula, ficavam à porta da sala recolhendo as carteirinhas, que deviam ser carimbadas pela secretaria com a presença do dia e devolvidas ao final do período. Então, era simples: ele não me deixaria entrar.

Abro um pequeno parêntese: estudava na mesma classe o meu primo Tadeu. Tadeu Arthur de Mello. Éramos ambos muito parecidos. O que nos distinguia era o modo de trajar: enquanto eu usava roupas simples, calça e camisa sem quaisquer atrativos, Tadeu vinha sempre muito bem arrumadinho para as aulas, em terninhos com gravata! Bem-comportado e tímido, não era um menino que chamasse a atenção ou desse qualquer tipo de problema aos professores. Passava quase desapercebido.

Pois bem, naquela manhã, depois de chegar à conclusão de que Padre Luís com certeza não recolheria minha carteira estudantil e, portanto, não me deixaria entrar, aplicando-me uma suspensão pela rebeldia, resolvi dormir um pouco mais, iludindo minha mãe com qualquer desculpa para chegar mais tarde ao Colégio.

E aí entra a narração do Adelino e de outros colegas. Ao apresentar sua carteira para entrar, todo tímido e no seu terninho com gravata, Padre Luís barrou-o:

- Vous não entra! – decretou.

- Mas, Padre Luís, o que foi que eu fiz? – protestou o tímido Tadeu.

- Vous botou paletó e gravata, mas vous não me engana! Vous não entra!

E foi uma encrenca para convencer o Padre Luís de que aquele era o Tadeu e não o proscrito aluno que fizera grimaça na aula anterior e se rebelara ao ser expulso. Ah, sim: só muito tempo depois, quando tive acesso a um dicionário é que descobri o significado de grimaça: trejeito, esgares, careta. Deduzo que, quando ele se voltou para a classe e me viu, pensou que, ao levantar o braço, para espremer a espinha, eu estava lhe mandando aquela famosa “banana” e fazendo caretas para ele.


7.4.2016



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