21 de abr de 2016

Minas




(Foto de Fátima Alves)





Verdes montanhas mareadas


Sonho de liberdades fracassadas


Leito de amores constrangidos


Minas o teu ouro apodrece


Nas latrinas pútridas das europas


Enquanto o teu povo engrandece


Os passos genocidas dos bandeirantes


Minas de gente que dança e alucina


Ao som de tambores e cavatinas


De gente que reza por rosários


De contas marcadas e diamantes


De contos de fadas e tesouros


Escondidos em tuas cavernas


Minas das cruzes e procissões


Teu povo agradece a cada dia


Um deus que inventou traições


Minas de gente que tanto crê


Que até os ateus são católicos


Tuas igrejas barrocas conservam


Ossadas de falsos nobres e mártires


De falsos ouros são os ornamentos


De teus padres que cantam missas


Pelas gastas ladeiras de negros ouros


Minas de grotas profundas


Cavadas com sangue ao pálio das estrelas


Não há mágica nas tuas noites


Quando a lua detalha montanhas


Plenas de verdes e negras memórias


Minas de minas e escravos


Minas de ouro e pobreza


Nos teus rios a cobiça navega


Para os braços de dom Sebastião


E dona Maria a louca colhe jabuticabas


Para a geleia geral da corte lusa


Minas de desejos e beijos e queijos


Alucinados todos pela doçura


De falsas falas e falsos anseios


Desatas os nós da história


Nas pedras do passado


E nos sonhos de grandeza


Por estradas antigas de reis


E negros e traidores e heróis


E guardas teus segredos


No riso escondido de tua gente


Que fia no escuro e se banqueteia


Em mesas de grandes gavetas


Que assa quitandas sovadas


Com polvilho e gema de ovos


De velhas galinhas d’angola


Em fornos de lenha e serragem


Minas de deuses dissolutos


Das noites de grilo e lua


Nos corredores de antigos casarões


De mil janelas vigilantes


Que fingem que olham e não veem


Que teus guardados tesouros todos


Já não estão onde guardaste


E sonhas ó Minas de minha infância


Ó Minas de meus temores e tremores


Que trilhas as trilhas do enforcado


Quando és apenas o velho rascunho


Do aço e da seda de tuas montanhas.



20.4.2016

21.4.2016

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