6 de abr de 2016

LUPANÁRIO


43


depois do bar



(Francis Picabia)



batem cinco horas
no relógio da São Bento

encontro-me contigo afinal
depois de muitas ruas
e esquinas

no bar o garçom sonolento
nos recebe com cara
de poucos amigos

peço um uísque
você toma uma coca-cola

paraguaio o uísque
quente o refrigerante

não nos falamos

o garçom nos olha
desconsolados os três
há todo um clima
de noite interrompida
e dia que não vem
ou vem lentamente
no passo trôpego dos operários
que irão daqui a pouco
dependurar-se como fantoches
nos elevadores externos
de prédios em eterna
construção

olho nos teus olhos e
teus olhos não olham
nos meus

somos agora estranhos
que há pouco se conheceram

ficou para trás nossa
história
e nem sei bem por quê

na tela mortiça da tevê
balança os quadris a Beyoncé
não a ouço cantar apenas
vejo-a a rebolar
com mais algumas bailarinas esguias
e um trio de cantoras gordas e felizes

a coca-cola esquenta
entre teus dedos
ligo nas tuas pernas nuas
as pequenas varizes
que tecem desenhos
desenhos de operários
presos por fios azuis
como fantoches

foram tão ferrenhos
nossos dias

no copo em minhas mãos trêmulas
o gelo do uísque derrete
o garçom limpa o balcão e tosse

espera com certeza
que comecemos uma briga
e olha-nos complacente

não tem tempo o tempo
de espera

o relógio da São Bento
martela os quinze minutos
de nosso silêncio

a cidade acorda

levanto e chamo o rapaz que agora
varria a calçada

em passo lento volta ao balcão
anota num pedaço de papel a conta

pago com uma nota velha de cinquenta
recuso o troco
e saio
a Beyoncé e suas bailarinas recolhem
o aplauso
não olho para trás
porque sei que teus olhos
me seguem
que teus olhos me seguem
até que chegue à rua
e depois meus passos chapinharão
na rua molhada há pouco lavada
e depois
e depois teus olhos piscarão

(soube que choraste por mim)

e não haverá mais nada




14.9.2013



FIM



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