16 de mar. de 2016

LUPANÁRIO

3

desvario




todo mês eu tenho
como qualquer cão sabujo
quatro horas de felicidade
num hotel sujo
do centro da cidade

são quatro horas apenas
quando sai de dentro de mim
o gozo esboçado
de muito sexo reprimido,
muito gozo consumido,
num hotel vagabundo
no cu do mundo,
no centro da cidade

farejo o sexo, sexo e felicidade,
como um cão sabujo,
não importa quem seja,
a puta que comigo partilha
os lençóis manchados
de muita porra e sangue
numa ilha de fogo e flor
redonda como um disco voador
- são sempre redondas
pingando luzes coloridas
as camas dos hotéis sujos
do centro da cidade –

importa apenas que o abajur colorido
tenha lâmpada de vinte watts,
para que a penumbra disfarce
nossos beijos cansados,
nossos corpos mal amados

todo mês eu cato
uma puta qualquer
no centro da cidade
e carrego com ela,
seja moça ou já outrora mulher,
para uma cama redonda
para comê-la como se come uma pizza,
fatia por fatia, primeiro os beiços,
depois os seios murchos
ou mal irrompidos,
e vou descendo
a língua como uma seta
até a fenda da boceta
 – que seja ela de pelos coberta
ou lisa como a mesa de bilhar
do boteco ali do lado –
sugo seus sumos como néctar
ou cheiro seus cheiros como cocaína,
- seu rosto até mesmo se ilumina -
e são a minha droga
o seu cheiro e o seu gosto,
no barato de tesão
em que me perco, tragado
em vorazes pesadelos
de sexo, orgasmos
e despudores

não, não me importa
se a puta que geme
e toda treme
ao toque de minha boca,
ao movimento de minha língua,
morra à míngua
ou de louca se faça 
e se desfaça em gemidos espremidos
à mentira do seu gozo:
importa apenas que se cale,
que nada fale,
e que, às vezes, deixe
que eu nade como um peixe
em seus líquens e estrebuchos,
que vou - sem pressa e sem luxos -
fazendo do meu trabalho
a prece do velho ateu
para o mesmo deus bandalho
que pulsa e espirra porra
através de meu caralho

como-as todas com devoção,
fodo-as todas, fodo-as,
velhas virgens maltratadas,
vindas de todas as estradas
para as picas mais taradas
de todos os varões podres
do centro carcomido
da velha cidade;

amo-as todas,
não cada uma delas,
que amor de puta
é amor-cicuta:
se não mata, corrói,
e como dói! então,
necessito delas
como os meninos e meninas,
desmilinguidos fantasmas,
- flutuantes miasmas -
de todas as esquinas
sugam do cachimbo a vida
a pedir com os olhos apagados
um real – apenas um real –
para mais uma pedra

ah, todos os meses,
faça chuva ou faça sol,
no centro da cidade
onde medra
a flor negra de negros desejos,
o centro da cidade e seus hotéis,
seus hotéis de curtos
momentos e ensejos
de sonhos e pesadelos,
represento vários papéis
de loucura e desespero
durante apenas quatro horas
de felicidade -

                         chamo-os assim
- esses  delírios, esses despautérios –
esses minutos e segundos deletérios –
de felicidade

mas sei – e como sei! –
que são apenas momentos,
terríveis e funéreos momentos,
em que me rio
às bandeiras despregadas
da vida e de seu desfastio,
de meu cansaço de viver,
poeta em pleno spleen
que parece nunca ter fim,
e admito mesmo para mim
que essas horas esmaecidas,
neste agora revividas,
horas que foram como rios,
são momentos,
estranhos momentos,
de pura felicidade
essas quatro horas
de sexo e desvarios,
com putas maltratadas
quase sempre mal comidas,
num hotel vagabundo
no oco do cu do mundo,
no centro da cidade.
1/9/2011 e  13/6/2012 e 30/7/2012





4    

meus passos




faço e desfaço
meus passos
pelas calçadas
da noite
desde tempos de eu menina

conheço-as todas
as pedras do bairro
as portas das boates

conheço-os todos
os pontos de ônibus
e todos, absolutamente todos,
os tipos de fregueses

homens enchapelados
encarquilhados
jovens desesperados
despraparados para o sexo

pelo vão de minhas pernas
passaram cores e tamanhos
passaram varas e línguas
passaram sonhos e frustrações

sou eu a puta que chorou
com quem não gozou
sou eu a puta que riu
com quem não subiu
e a todos consolou

sou eu a puta que dançou
nos sonhos e pesadelos
de homens e mulheres
e cumpriu todos os apelos

na cama sou banquete
de trezentos talheres
e nada, nem mesmo o paquete
de todos os meses,
me impede de trocar o riso
pelo falo entre os dentes

se meto contigo, meu amigo,
é porque deixo contentes
todos aqueles que de trocado
em trocado fazem da féria do mês
o regalo para meus batons
não, não me acho a melhor
se são tão bons os homens,
todos os machos que me fodem

e eu trepo, sim, em qualquer vara
por um prato de comida,
faço um boquete bem comportado
a quem me chama de querida,
tanto ao rapaz do bar ao lado,
ou ao pobre estudante sem trocado

puta, sim, mas também mulher
a cumprir meu destino
como outra qualquer,
mas sempre, meu amigo, sempre,
no meu corpo de menina,
sou mais eu em cada gota
de porra ou de urina
que pinga em minha vagina

assim, faço e refaço
meus passos,
porque sei o que faço
porque sei o que passo
sou tua porque sou puta
e sou puta porque sou tua





25.7.2013


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