18 de mar de 2016

LUPANÁRIO

7    

caçador






gozo na tua boca
o sangue dos meus passos pela rua
e enquanto engoles
os gemidos dos tropeços em cada pedra
arrepio a pele
e escondo meu desencanto
és, mulher, a esperança inútil
de que um dia esse cão que rosna e não morde
perca de vez sua carcaça suja


redenção na tua língua é o que eu penso
o pau teso
o corpo transido
a mente entupida
a cabeça rodando

e depois que abotoo a braguilha
se jogo umas notas fedidas na tua mão
não é por paga daquilo que fizeste
é apenas o gesto de me tornar mais vil
aos olhos de mim mesmo
caçador que margeia o rio e atira
na própria sombra a sombra do leão

abatido então não volto os meus passos
para o passado de meu esconderijo
entre o vão do viaduto e a escada para o rio
porque não há mais viaduto e o rio
solta peidos de podridão




8    

por qualquer dinheiro





à noite por ruas e becos
sou aquela que dá
por qualquer dinheiro

abro as pernas
fecho-me por dentro
e deixo que pirem
todos os machos
que zumbizam por aí
pernetas e cegos
loucos e operários
de cores e jeitos
e trejeitos e desejos
e anseios desesperados
todos deitam em mim
seus sumos e suores
dissabores e amplexos
são todos os coitados
cães exilados
carpidores penados
gente que passa que passa que passa
gente sem rastro
gente sem sombra
dejetos da noite
gente
gente que ri que chora
que mama
em minhas tetas pendurados
anões desfribrados
gigantes empoados
gente que passa que passa que passa
sem rostos que fiquem
sem sonhos de valsa
só sumos suores e sêmens
seres que a vida desperdiçam
no látex do lixo
no lixo do lixo que passa que goza
que goza sem volta
a grana na bolsa e na boca
o gosto de nada

e eu sigo a mim mesma
na sombra da noite
de garoa ou luar
e tantas vezes eu faço e refaço
meu laço e tantas vezes
mexo e remexo meu corpo
na dança sem luzes
de catres e becos
por grana ou comida
a todos eu dou
sem pejo e desejo
meu louco teatro
teatro de orgasmos



10.8.2013


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