14 de mar. de 2016

dia de me lembrar de você, meu amigo








(para Vitório Pereira Resende)



hoje é dia de me lembrar de você,
meu amigo,
não importa por quê:
hoje e todos os dias são dias
de me lembrar de você

você voou antes que pudéssemos
ver de novo o pôr do sol
para as nuvens negras que chovem saudades
eu, eu fiquei para lembrar, meu amigo,
eu fiquei para chorar

as pedras das trilhas que nos levavam
à velha cachoeira e ao poço cercado de bambuzais
rolaram morro abaixo talvez
talvez estejam mais perto do velho córrego
talvez nem se lembrem de que as pisamos
tantas vezes
elas, as pedras das trilhas, não choraram por você,
porque elas, as pedras, são quase eternas
na ânsia da permanência,
eu, meu amigo, consolo-me pensando
que, se as pedras não choram, choro eu
todos os dias e elas, as pedras, no seu mutismo
quase eterno,
derretem-se com o calor do meu pranto
que sobre elas cai a cada momento
que revejo em névoas cada vez mais espessas
nossas estripulias, nossa corridas malucas,
nosso jogo de botões, nossos cães e gatos,
nosso laboratório de mandacaru,
nossa machadinha de pedra sabão,
nossas mangueiras e jabuticabeiras,
e tantas as frutas capturadas no quintal do vizinho,
e tantas as prosas lentas nos bancos da praça,
e tantos os sonhos nas madrugadas frias,
e tantas as esperanças nos cadernos rotos,
e tantos os dias de pobreza e desatinos,
que, meu amigo, se você pudesse me ver agora,
se você pudesse estar aqui agora, comigo,
só nos restaria aquele abraço afetuoso
e o ombro um do outro que sempre tivemos,
quando a vida no pregava tantas peças

hoje é dia de me lembrar de você,
meu amigo,
hoje e todos os dias são dias
de me lembrar de você...



1.3.2016

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