11 de mar de 2016

paisagem urbana



(Foto do autor)





da janela de minha sala de jantar
havia uma paisagem
nada de muito espetacular
nada de muito comovente
numa cidade que é tão espetacular
e nada nada comovente

via em primeiro plano telhados comuns
e logo atrás redonda copa de uma grande árvore
o verde forte sobre o vermelho dos telhados
sobrevivente comovida ao cimento e ao concreto
mais ao fundo alguns apartamentos
raramente iluminados
que pareciam até desabitados
mas sabia que a árvore e os apartamentos ao fundo
tinham o sinal da vida que pulsa e resiste
pessoas invisíveis entre paredes
bem-te-vis e sabiás entre as folhas e galhos

ah sim ainda me lembro
que entre os telhados e as árvores e os apartamentos distantes
havia uma nesga de céu
um céu azul às vezes
um azul de cidade grande e poluída
um céu nublado outras vezes
de nuvens negras de águas que assustam
era um rasgo no pano de boca tão sujo
essa nesga cambiante de azul e cinza
essa nesga de espaço
por onde pareciam circular
os pássaros e os aviões de carreira

como se pode notar
uma paisagem realmente nada espetacular
mas uma paisagem é sempre uma paisagem
descansa a vista mesmo quando
a olhamos distraídos
comendo um feijão feito na hora
com um bife mal passado
pois era uma paisagem avistável
de minha sala de jantar

durante anos e anos e anos
contemplei sem desejo a paisagem tão simples
gostava dela por gostar
sem muito o que falar
sem muito por entusiasmar
um retrato que mudava pouco
enquanto eu em mim mesmo mudava muito

não me cansava aquela paisagem
mas o que cansou foi a velha cidade
e ela – a velha cidade – apenas uma metonímia
de nós que a habitamos – pensou
que minhas refeições tão pobres podiam sim
mais pobres ficar
e ela – a cidade – a metonímia de um nome
de alguém com certeza endinheirado
mandou erguer um muro entre mim e minha paisagem
uma construção qualquer
um prédio para esse alguém – talvez a cidade tão metonímica –
ganhar mais um pouco de dinheiro


hoje o meu feijão tem ainda o mesmo tempero
mastigo o mesmo bife mal passado
mas meu olhar perdeu completamente
o alho
a cebola
o sal
e é apenas o olhar de todos os demais habitantes
desta velha
incansável
surpreendente
cidade metonímica onde todos olhamos sem ver
cercados e enterrados todos
pouco a pouco
por muros de tijolos e desencantos





28.1.2016

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