15 de mar de 2016

LUPANÁRIO




LUPANÁRIO

(Eduard Wiiralt)


POEMAS


ISAIAS EDSON SIDNEY


NOTA

Ilustrações dos poemas ímpares: Jean-Pierre Ceytaire; 
ilustrações dos poemas pares: Luis Royo.



1     

manga madura






percorro trilhas de mato
nas curvas de teu corpo
e reencontro cheiros de eu menino:
a chuva que num repente de verão
pinga barro em minha língua;
a grama pisada e a murcha-cadela
- ai que susto -  que se fecha envergonhada;
o sebo na bola de couro de boi
 - peladas homéricas na tarde esticada;
a jabuticabeira em dia de noiva
a prometer prazeres dos sumos mais doces;
o jambo que cai do bico do sabiá
e à boca perfuma com o cheiro de serra;
à chama do velho fogão gira a torradeira
e o cheiro moreno dos grãos de café
entope as narinas, provoca na boca
a pororoca dos teus beijos perdidos;
queima o cedro-rosa em serragem cuspida
pelos dentes da serra elétrica
a calda do figo na panela de açúcar;
são cheiros de teu corpo, são cheiros
do mato - paus e frutos, flor e terra -
o cheiro do teu corpo, o cheiro da serra;
têm a tua pele, o teu corpo, dentre todos,
 o aroma que me alucina,
na trilha de cheiros de teu corpo,
na trilha que trava a língua na flor
- ou é fruta? - esse cheiro porreta
de céu e de inferno, de eterna fissura,
o cheiro que sinto de tua boceta,
esse doce perfume de manga madura



7.5.2012
12.5.2012
30.5.2012
11.12.2012





2

redenção

                    



redimes com tua vara
o meu passado,
não há, no entanto,
pecado
nem em mim nem em ti
apenas a clara
trajetória de vidas tão diversas

eu, menina ainda, já te buscava
pelas trilhas de minha periferia,
sem saber que existias

não basta, pois, a clava
com que me consomes,
para levar-me ao paraíso:
se, com a boca, tu me comes,
com a cona te escravizo.


24.7.2013







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